Ainda repercute nas redes sociais a reportagem do jornal “O Estado de S. Paulo”, do dia 6 de junho passado: “Por verbas, TVs católicas oferecem a Bolsonaro apoio ao governo”. As primeiras reações de grupos, instituições e membros da Igreja foram diversas: uns manifestando indignação; outros se eximindo de qualquer responsabilidade; e não faltaram os que condenaram, pura e simplesmente, os participantes da videoconferência de 21 de maio.

Há mais de trinta anos participo da programação de uma dessas emissoras de orientação católica (TV Século XXI); acompanho de perto suas lutas para informar e formar, sua abertura às orientações da CNBB e seu desejo de estar a serviço da Igreja no Brasil. Pelo que conheço das demais, não tenho dúvidas de que elas adotam essa mesma orientação. Basta observar sua participação em momentos importantes da vida da Igreja e sua preocupação de transmitir e informar sobre o que é feito e aprovado pela CNBB, particularmente o que acontece em suas assembleias nacionais.

Senti-me, pois, na obrigação de assistir à tal videoconferência. Por sinal, não sei se todos os que criticaram o referido encontro se deram ao trabalho de assistir ao vídeo (haja paciência!) de uma hora, 10 minutos e 30 segundos de duração. Tudo indica que se satisfizeram (e se indignaram) lendo apenas a manchete bombástica do Estadão.

Penso que esse episódio deve ser melhor avaliado. Se o tal encontro se resumisse ao que foi destacado pelo jornal, seria mesmo de se lastimar. Mas pode-se perguntar, como o fez Dom Peruzzo, arcebispo de Curitiba, sobre a razão de os demais grandes veículos da imprensa nacional nada comentarem a respeito do assunto, ao longo das duas semanas que separaram a videoconferência da reportagem publicada no jornal paulistano. Seria também de se indagar o porquê de ninguém fazer referência aos outros temas tratados naquele encontro, como a valorização da vida e da família, a questão do aborto, a necessidade de um olhar atento para o trabalho das entidades filantrópicas – como, por exemplo, o desenvolvido pelos Vicentinos, que atendem a mais de 40 mil idosos, e necessitam de uma consideração especial, ainda mais nesses tempos de pandemia.

Não estou aqui para defender ninguém, mesmo porque para nada serviria minha modesta defesa. O que não posso aceitar é que as TVs de orientação católica, que tanto se esforçam para sobreviver e evangelizar, sejam detratadas e condenadas no seu todo. Elas precisam melhorar? Sim, e muito! Mas isso é matéria para um outro artigo.

Tenho certeza de que os trabalhos evangelizadores no Brasil perderiam muito sem a presença e a atuação das redes de inspiração católica. Sem elas, muitas orações deixariam de ser feitas pelas famílias; inúmeros doentes e idosos perderiam preciosa companhia; em não poucos lugares a Palavra de Deus deixaria de ser anunciada. Quantos cursos de doutrina da igreja, de doutrina social cristã, de introdução à Bíblia etc. têm sido dados por esses canais! Quanto incentivo eles já deram à participação e colaboração com grupos e entidades que trabalham no campo social! Em resposta ao avanço da Covid-19, e do decorrente isolamento social, essas emissoras fazem chegar aos mais remotos cantos do país a presença do Senhor, através de celebrações, de palavras de incentivo e de conforto!

Resumo da ópera: coragem, amigos das TVs de orientação católica! Façam uma avaliação de seus passos e de suas propostas! Estreitem o diálogo com os bispos! Corrijam-se no que for necessário corrigir! Melhorem! Profissionalizem-se mais! Fiquem independentes de governos de esquerda ou de direita, para preservarem a liberdade de ação e manterem a credibilidade. Mas não deixem, por favor, de ser uma presença constante nos lares brasileiros!

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo Emérito de São Salvador da Bahia

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