Comissão Internacional de Diálogo Católico-Pentecostal

Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos (Vaticano)

NÃO EXTINGAIS O ESPÍRITO

OS CARISMAS NA VIDA E NA MISSÃO DA IGREJA

DOCUMENTO DA SEXTA FASE

DO DIÁLOGO INTERNACIONAL

CATÓLICO-PENTECOSTAL (2011-2015)

I. INTRODUÇÃO

  1. Católicos e Pentecostais se alegram com a renovada ênfase que deu-se, em décadas recentes, aos carismas na vida e na missão da Igreja. Juntos afirmam que o Espírito Santo jamais cessou de conceder seus carismas aos cristãos, de qualquer época, a serem exercidos para a difusão do Evangelho e a edificação da Igreja. Ao longo do século passado a experiência dos carismas teve um papel mais central, em grande parte graças ao testemunho dos movimentos Pentecostal e Carismático.
  1. Católicos e Pentecostais são muito gratos ao Senhor por ter-lhes concedido seus divinos dons. Ao mesmo tempo, reconhecem que o exercício dos carismas se apresenta, por vezes, como fonte de tensão e preocupação em diferentes partes do mundo. Sérias questões têm sido levantadas a respeito da autenticidade e da manifestação dos carismas: Qual sua fonte? Como os carismas podem ser definidos e compreendidos, corretamente? Nos casos de sua manifestação e exercício, a quem compete supervisionar? E qual supervisão se poderá oferecer para assegurar um apropriado uso desses carismas?
  1. Com base neste terreno comum, partilhando preocupações comuns, a Comissão Internacional de Diálogo Católico-Pentecostal aplicou-se ao tema Carismas na Igreja: significado espiritual, discernimento e implicações pastorais. O objetivo primário deste diálogo é propiciar mútuo respeito e compreensão entre a Igreja Católica e as Igrejas e líderes Pentecostais Clássicos, à luz da oração de Jesus para “que todos sejam um” (Jo 17,21). Note-se ainda, que a escolha deste tópico específico sobre os carismas é uma marca de continuidade no percurso deste Diálogo Internacional. Nos encontros preparatórios ocorridos em 1971, o Comitê Diretivo havia dito que o Diálogo poderia “dar especial atenção ao que significa hoje, para a Igreja, a plenitude da vida no Espírito Santo”; uma atenção “orientada pelas duas dimensões desta vida plena no Espírito, ou seja, a dimensão experiencial e a dimensão teológica”[1]. O presente documento é o primeiro Relatório (Report) advindo de um diálogo bilateral internacional a tratar, com relevância, do tema dos carismas na vida e missão da Igreja.
  1. Os participantes iniciaram seu estudo com uma visão panorâmica sobre os carismas (Roma, 2011); depois, em diálogos consecutivos, focaram três carismas específicos: discernimento (Helsinki, Finlândia, 2012), cura (Baltimore, MD, 2013) e profecia (Sierra Madre, CA, 2014), identificando abordagens, interpretações e desafios comuns. O presente Relatório foi redigido em Roma em 2015, a partir dos resultados dos três encontros anteriores. O objetivo desta fase do Diálogo foi: apresentar uma reflexão partilhada sobre os carismas, considerando suas dimensões teológica, pastoral e espiritual, dando luz aos elementos que Católicos e Pentecostais podem afirmar juntos, e esclarecendo os desafios e as diferenças que necessitam afrontar.
  1. No que se refere aos carismas em geral e aos três carismas, em particular – discernimento, cura, profecia – os Católicos não têm um ensino oficial (magisterial) exaustivo; os Pentecostais, por sua vez, não têm um corpo doutrinal comparável a um magistério comum, que possa servir como fonte para um posicionamento único entre eles. Por outro lado, a Bíblia se torna referência comum, ao oferecer os elementos fundamentais para uma reflexão teológica e pastoral partilhada sobre o tema. Ademais, a vívida experiência dos carismas nas comunidades cristãs do Novo Testamento é não só paradigmática, mas também uma fonte de inspiração que pode encorajar os cristãos a uma melhor recepção dos Dons do Espírito nos dias de hoje. De fato, descobrir novamente aquela sabedoria espiritual concedida pelo Espírito Santo à Igreja ao longo dos séculos é essencial para tratar do importante tema dos carismas.
  1. O Diálogo tem se desenvolvido com o apoio, de um lado, da Igreja Católica – mediante o Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos – e, de outro lado, por uma equipe de Pentecostais Clássicos, cuja participação tem o suporte de suas respectivas Comunidades, sendo que alguns desses participam como representantes oficialmente nomeados por suas Igrejas. Neste sentido, entre as Igrejas Pentecostais que enviaram oficialmente participantes estão: a Igreja do Pentecostes (Church of Pentecost) de Gana, várias Igrejas nacionais congregadas na Federação Mundial das Assembleias de Deus (World Assemblies of God Fellowship), também as Igrejas Evangélico-Pentecostais Unidas (Verenigde Pinkster – en Evangeliegemeenten) da Holanda, a Igreja Internacional do Evangelho Quadrangular (International Church of the Foursquare Golpel) e as Igrejas da Bíblia Aberta (Open Bible Church) na América do Norte. Além disso, desde seus inícios, este Diálogo tem sido apoiado pela Missão de Fé Apostólica (Apostolic Faith Mission) da África do Sul.
  1. Esta fase do Diálogo (Fase VI: 2011-2015, programada em 2010) foi conduzida por dois co-presidentes: Revmº Dom Michael F. Burbidge, então bispo católico de Raleigh, Carolina do Norte, EUA; e Revmº Pastor Cecil Mel Robeck, das Assembleias de Deus em Pasadena, Califórnia, EUA. Serviram como co-secretários: Mons. Juan Usma Gómez, do Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos (Vaticano) e Pr. David Cole, das Igrejas Bíblia Aberta (EUA e Canadá).
  1. Os participantes partilharam sua reflexão sobre os carismas em sua dimensão espiritual, pastoral e teológica; propuseram-se mutuamente questões sobre como compreendem os carismas, sobre o modo como são exercidos ao interno das respectivas comunidades, bem como sobre as dificuldades que têm encontrado na prática e no discernimento dos carismas. As atividades – conduzidas numa atmosfera de confiança mútua – foram subsidiadas por estudos acadêmicos (papers) apresentados por teólogos convidados, seguidos de discussão séria, momentos de oração grupal e também momentos de culto em ambas as comunidades, pentecostal e católica. Essas experiências contribuíram significativamente para as percepções e observações feitas pelos participantes. Como resultado deste Diálogo, os participantes estão convictos do valor dos carismas para a Igreja na atualidade, na esperança de que os leitores e leitoras deste Relatório possam descobrir, de modo renovado, a importância dos carismas na vida de suas Igrejas, enquanto testemunhas do Evangelho.
  1. CARISMAS NA VIDA E MISSÃO DA IGREJA
  1. O QUE CATÓLICOS E PENTECOSTAIS SUSTENTAM EM COMUM
  1. Juntos, Católicos e Pentecostais afirmam a natureza carismática de toda a Igreja. Os carismas são essenciais tanto para a vida da Igreja, quanto para sua missão evangelizadora. São expressões do amor de Deus por seu Povo e manifestação de sua viva Presença em meio a este. Livre e soberanamente concedidos pelo Espírito Santo, os carismas capacitam os crentes para participar do plano divino da salvação, para o louvor e a glória do Pai. Pentecostais e Católicos reconhecem a presença dos carismas na História das duas tradições e encorajam-se mutuamente: “Procurai o amor; aspirai aos dons do Espírito” (1Cor 14,1)[2].
  1. Os carismas são dons do Espírito Santo a todos os que creem (1Cor 12,7-11). Para os Católicos, a base para o recebimento dos dons espirituais são o Batismo e a Confirmação; entretanto, o Espírito frequentemente concede seus dons no percurso posterior aos sacramentos de iniciação, especialmente em vista de um chamado renovado ao serviço e à missão. Para muitos Pentecostais, o batismo no Espírito Santo é a porta de entrada essencial para o recebimento de alguns carismas em particular. Católicos e Pentecostais concordam, entretanto, que os carismas não são confinados aos sacramentos nem ao batismo no Espírito Santo.
  1. Ainda que os carismas sejam disponíveis a todos os crentes, tornam-se operantes quando os cristãos se entregam confiantes ao poder do Espírito Santo, proclamando o Evangelho e servindo uns aos outros. Os carismas manifestam a criatividade do Espírito; são dons generosamente dados e muitas vezes ultrapassam toda expectativa. Tanto os carismas mais extraordinários (tais como curas, milagres, profecias e línguas), quanto aqueles considerados mais ordinários (tais como serviço, ensino, exortação, distribuição de donativos, presidência e obras de misericórdia) são vitais para o ser e a missão da Igreja.
  1. Com a assistência do Espírito Santo, toda a comunidade de fé – ministros ordenados e fiéis leigos – é chamada a engajar-se num processo de discernimento para verificar se certas palavras e feitos são manifestações genuínas do mesmo Espírito. A Escritura ensina que o critério último para o discernimento dos carismas são a verdade e a caridade (1Jo 4,1-3; 1Cor 13,1-3), sendo que o ponto de chegado do nosso caminhar com Deus, em Cristo, já começou com o Batismo e a conversão.
  1. Os carismas são dons do Senhor Jesus, ressuscitado e glorificado nos céus, mediante seu Santo Espírito (Ef 4,8-12). Dons coerentes com a presença salvadora de Cristo no mundo, que não se manifesta apenas por suas obras de poder, mas também na fraqueza, pobreza e sofrimento que fazem parte da condição humana (2Cor 12,9). Mesmo o mais poderoso dos carismas não isenta os cristãos de carregar a cruz e abraçar as exigências do discipulado. Pentecostais e Católicos desafiam profeticamente as culturas e as teologias que negam o valor e o sentido espiritual do sofrimento. Enquanto creem, por exemplo, que o poder de Deus se manifesta nas curas, milagres e no bem que Ele provê para seu Povo, são igualmente críticos de toda ênfase que poderia levar a Igreja a tendências escapistas e triunfalistas.
  1. Católicos e Pentecostais podem alegrar-se juntos, pelo dom que cada uma de suas Comunidades representa a todas as demais tradições cristãs. Os Católicos reconhecem que os Pentecostais têm suscitado uma maior sensibilidade para com o derramamento do Espírito Santo e o exercício de Seus dons na Igreja contemporânea. Os Pentecostais, por sua vez, não compreendem o derramamento do Espírito por eles experimentado como algo confinado às Igrejas Pentecostais, mas consideram os carismas como um dom para a Igreja em sua totalidade. Além disso, são gratos pelo fato de que os Católicos, bem como outros cristãos, têm reconhecido o testemunho pentecostal sobre o valor dos carismas para a vida da Igreja. Juntos, Católicos e Pentecostais admitem o derramamento do Espírito Santo como graça para o inteiro Corpo de Cristo; graça que supera inclusive suas próprias expectativas.
  1. B) FUNDAMENTOS BÍBLICOS
  1. Para ambos, Católicos e Pentecostais, a compreensão dos carismas é enraizada na Escritura.
  1. O Primeiro Testamento atesta a presença e a ação do Espírito desde os inícios da Criação (Gn 1,2). A seguir – ao longo da história do Povo de Deus – a ação carismática do Espírito pode ser vista no caso de pessoas como José (Gn 41,25.38-39), Moisés (Dt 34,10-11), Bezalel (Êx 31,2-6), os setenta anciãos (Nm 11,17.25-30) e Josué (Nm 27,18). Os Juízes, por sua vez, foram aqueles em Israel a quem o Espírito dotou com graças especiais, fazendo deles líderes e libertadores heroicos do Povo (Jz 3,10; 6,34; 11,29; 14,19; 15,14-15). Saul, Davi e outros reis também receberam dons especiais para o exercício de suas funções, como líderes do Povo de Deus (1Sm 10,6; 16,13). Salomão, por exemplo, recebeu um específico dom de sabedoria (1Rs 3,6-15). Os profetas do Primeiro Testamento receberam o Espírito de Deus para que seu ministério profético fosse cumprido numa perspectiva carismática (2Rs 2,9-14). E Joel, por sua vez, profetizou o derramamento escatológico dos dons do Espírito sobre todo o Povo de Deus (Jl 2,28)[3].
  1. No Novo Testamento, os Evangelhos revelam Jesus como o Ungido (Messias) enviado pelo Pai, sobre Quem desceu o Espírito ao ser batizado no Jordão (Lc 3,21-22). Ao inaugurar sua missão com o discurso na sinagoga de Nazaré, Jesus identificou a si mesmo como alguém ungido pelo Espírito, para anunciar as boa-nova aos pobres e manifestar a vinda do Reino de Deus pela cura dos enfermos e a libertação dos oprimidos (Lc 4,18-21). Jesus responde às perguntas levantadas por João Batista, apontando à sua própria atividade carismática como evidência de que Ele é o Ungido de Deus prometido (Mt 11,4-6). Dotado com tal Unção, Jesus enviou em missão os Doze (Mc 6,7; Mt 10,1; Lc 9,1) e também os Setenta [e dois] discípulos (Lc 10,9), dando-lhes autoridade para pregar, curar e expulsar os demônios (Mc 6,13; Lc 9,6). E na narrativa de conclusão do Evangelho de Marcos, Jesus Ressuscitado promete que manifestações carismáticas e proteção contra o mal serão marcas distintivas de seus seguidores:

Estes são os sinais que acompanharão os que tiverem crido: em meu nome expulsarão os demônios; falarão novas línguas; pegarão serpentes com as mãos e, se beberem algum veneno mortal, isto não lhes causará mal algum; imporão as mãos aos doentes e estes serão curados. (Mc 16,17-18)

  1. Todos os quatro Evangelhos relatam a profecia que proclama Jesus como Messias Prometido, Aquele que batizará no Espírito Santo (Mt 3,11; Mc 1,8; Lc 3,16; Jo 1,33): promessa cujo cumprimento se dá no dia de Pentecostes, conforme testificam os Atos dos Apóstolos (At 2,33). Os dramáticos feitos narrados em Atos demonstram o prolongamento do ministério de Jesus na Igreja, mediante a proclamação do Evangelho acompanhada de sinais e prodígios. No Livro, os carismas de profecia (At 2,17; 19,6; 21,9), de cura (At 4,30; 5,16; 8,7; 28,8) e de operar milagres (At 4,30; 5,12; 6,8; 8,6; 14,3; 15,12) acompanham regularmente o anúncio do Evangelho, à medida que a Igreja se expande.
  1. As Cartas do Novo Testamento, particularmente aquelas de Paulo, usam o termo charisma(derivado de cháris, graça) para indicar os dons específicos do Espírito Santo pelos quais Deus edifica a Igreja (1Cor 12,4). Esses dons – os carismas – tomam formas variadas, refletindo a liberdade do Espírito: Ele abundantemente os concede e soberanamente os distribui. Paulo não fornece uma explanação total dos dons do Espírito, nem informa uma lista exaustiva dos carismas; em vez disso, sua ênfase está na iniciativa do Espírito e na diversidade de seus dons entre os crentes. Paulo diz na 1ª Carta aos Coríntios 12,4-11:

Há diversidade dos dons, mas o Espírito é o mesmo; diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo; diversos modos de ação, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos. A cada um é dado o dom de manifestar o Espírito, em vista do bem de todos. […] Tudo isto é o único e mesmo Espírito quem realiza, concedendo a cada um dons pessoais diversos, segundo a Sua vontade. (1Cor 12,4-7.11)

  1. São Paulo encoraja os fiéis a desejar os carismas com viva aspiração (1Cor 12,31); exorta os crentes a “tê-los em abundância, para a edificação da assembleia” (1Cor 14,12), de modo a não os extinguir (1Tes 5,19-22). O apóstolo também ensina que é necessário discernir os carismas (1Cor 12,10); diz que os carismas devem ser exercidos na Igreja ordenadamente, uma vez que “Deus não é Deus de desordem, mas de paz” (1Cor 14,33.40). Na Carta aos Romanos 12,6-8 ele escreve:

Temos dons que diferem segundo a graça que foi concedida. É o dom de profecia? Seja exercido de acordo com a fé. Alguém tem o dom de serviço? Que sirva. Outro, o de ensinar? Que ensine. Aquele que faz donativos, faça-o sem segundas intenções. Aquele que preside, que presida com zelo; aquele que exerce a misericórdia, que o faça com alegria.

Em acréscimo, em sua 1ª Carta a Timóteo, ele exorta: “Não descuides o dom da graça [charisma] que há em ti, que te foi concedido por uma intervenção profética, acompanhada da imposição de mãos pelo colégio dos anciãos [presbyteroi]” (1Tm 4,14).

  1. C) BREVES OBSERVAÇÕES HISTÓRICAS
  1. Católicos e Pentecostais afirmam que em todos os tempos e culturas o Espírito Santo mune os cristãos com carismas, para o testemunho do Evangelho e a edificação do Corpo de Cristo. Eles rejeitam a noção de que os carismas teriam efetivamente cessado após a era apostólica ou em outras fases da História cristã. Contudo, reconhecem que durante muitos séculos os carismas não estiveram à frente nem ao centro da vida eclesial. Supunha-se que o Espírito estivesse presente, mas, por vezes, com pouca expectativa a respeito de sua espontânea ação carismática. Apesar disso, a contribuição dos Padres Capadócios, o movimento monástico em suas variadas expressões, o avivamento espiritual verificado na Idade Média com Franciscanos e Dominicanos, e outras correntes de renovação ao interno da Igreja Católica, cultivaram uma contínua atenção ao Espírito Santo e seus carismas, constituindo sinais evidentes da ação do mesmo Espírito.
  1. Entre os motivos indicados pelos estudiosos para o declínio das manifestações carismáticas, estão: o largo ingresso de convertidos – carentes de sólida formação na fé – logo após a legalização do Cristianismo pelo Império Romano; a reação da Igreja aos excessos de movimentos carismáticos tais como o Montanismo e o Maniqueísmo, com seu desprezo pelo corpo; uma pneumatologia ainda incipiente, e os esforços teológicos em combater as várias heresias. Posteriormente, na História, os debates em torno da Reforma, o Racionalismo iluminista e o ceticismo generalizado por tudo o que fosse sobrenatural também contribuíram à escassa expectativa das manifestações extraordinárias do Espírito Santo.
  1. Católicos e pentecostais concordam que o avivamento Pentecostal do século XX acarretou uma atenção renovada aos carismas como algo essencial para revigorar a vida e a missão da Igreja. Esta mesma atenção aos carismas alcançou maior intensidade com o surgimento da Renovação no Espírito Santo nas igrejas Anglicana e Protestantes nos anos Cinquenta e Sessenta, e com o emergir da Renovação Carismática Católica em 1967. É também reconhecido o papel particular que o ensino do Concílio Vaticano II teve para a revitalização dos carismas em geral, além de afirmar a importância da dimensão carismática da Igreja (cf. Constituição dogmática “Lumen gentium” [Luz das gentes] sobre a Igreja 12).
  1. D) A IGREJA, COMUNIDADE VIVIFICADA PELO ESPÍRITO SANTO
  1. Juntos, Pentecostais e Católicos afirmam que, desde Pentecostes, o Espírito Santo tem constituído e animado a Igreja – a nova comunidade escatológica de Deus – levando-a a proclamar e manifestar continuamente o Seu Reino. A partir de Pentecostes, o Espírito capacitou vigorosamente os discípulos para levar adiante a missão do seu Senhor, enquanto Deus corroborava o testemunho do Evangelho com sinais e prodígios feitos em Nome de Jesus e pelo poder do mesmo Espírito (cf. Mc 16,17-18; At 14,3; Hb 2,4). A Igreja é, pois, missionária por sua própria natureza. E o Espírito Santo é o primeiro agente da missão eclesial; é Quem dirige e capacita a Igreja em toda a sua atividade.
  1. Deus chancela os crentes com o selo do Espírito Santo (2Cor 1,21-22), o Qual habita em cada um como num templo (1Cor 6,19). Por meio do mesmo Espírito, os crentes são santificados e feitos “pedras vivas na construção da casa habitada pelo Espírito, para constituir uma santa comunidade sacerdotal, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus, por Jesus Cristo” (1Pd 2,5).
  1. O Espírito dota os crentes com dons espirituais para a edificação do Corpo de Cristo. O mesmo Espírito é também o princípio da unidade (koinonia) em meio à diversidade de carismas e ministérios (1Cor 12,4-5). Tanto Deus distribui os carismas livre e soberanamente, quanto convida Seus filhos a beber na fonte do Doador dos dons, para confirmar as graças já recebidas e seguir desejando, confiadamente, os Seus dons. Pentecostais sentem-se encorajados pelo ensino da Igreja Católica, de que “da aceitação desses carismas, mesmo os mais simples, brota em favor de cada um dos fieis o direito e o dever de exercê-los para o bem da humanidade e a edificação da Igreja, dentro da mesma Igreja e do mundo, na liberdade do Espírito Santo que ‘sopra onde quer’ (Jo 3,8)” (Decreto “Apostolicam actuositatem” [Ação apostólica] sobre o apostolado dos Leigos 3; também Constituição dogmática “Lumen gentium” [Luz das gentes] sobre a Igreja n. 12)[4].
  1. Católicos e Pentecostais concordam que o Espírito Santo dota a Igreja com dons institucionais e carismáticos (1Cor 12,28). Na dimensão institucional da Igreja, o Espírito Santo está a operar através das estruturas de liderança estabelecidas por Cristo. Na dimensão carismática, o mesmo Espírito opera entre os crentes de todos os níveis, de modo contínuo, livre e muitas vezes imprevisível. Essas duas dimensões são coessenciais à Igreja e complementares entre si. A dimensão institucional tem, por assim dizer, uma face carismática, em tudo quanto nela é animado e continuamente sustentado pelo Espírito Santo; e a dimensão carismática tem, de seu lado, uma face institucional, em tudo quanto nela deve ser discernido pela Igreja e corretamente ordenado para o bem de toda a Igreja. Católicos e Pentecostais reconhecem e apreciam a existência de uma salutar tensão entre as dimensões carismática e institucional, na Igreja. A ambas aplica-se esta admoestação de Paulo: “Em nome da graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós: não tenhais pretensões além do que é razoável; mas uma justa estima de si mesmos, ditada pela sabedoria, de acordo com a medida da fé que Deus concedeu a cada um” (Rm 12,3).
  1. Pentecostais e Católicos concordam que o Espírito Santo suscita líderes e os qualifica com dons, para que ensinem e conduzam a Comunidade cristã, ajudando-a a crescer em santidade. A autoridade na Igreja é um dom de Deus e deve ser exercida como verdadeiro serviço, seguindo o exemplo do Senhor Jesus (cf. Mc 10,42-45). Pois Cristo mesmo é o supremo pastor da Igreja (cf. 1Pd 5,4). Católicos entendem a liderança na Igreja, primeiramente, conforme o tríplice ministério de Bispos, Presbíteros e Diáconos. Os Pentecostais esclarecem que, nas Comunidades pentecostais clássicas, há uma estrutura de liderança semelhante, com ministérios instituídos; contudo, o exercício da supervisão eclesial pode ter expressões mais amplas. Ambos reconhecem que a autoridade, na Igreja, deve ser exercida conforme a guia do Espírito Santo, para evitar os riscos de usá-la inapropriadamente.

III. REFLEXÃO SOBRE CARISMAS ESPECÍFICOS

  1. Católicos e Pentecostais concordam que a livre ação do Espírito Santo em conceder seus divinos dons constitui uma bênção para a Igreja. Os carismas devem, portanto, ser pedidos em oração, aguardados com expectativa e recebidos como dons de Deus. Entretanto, em muitos lugares, em vez de alegria, reverência, renovamento e edificação do Corpo de Cristo, o exercício dos carismas tem provocado tensões e apreensão. Os líderes católicos e pentecostais partilham a preocupação de que a raiz dessas tensões está no insuficiente discernimento dos carismas, favorecendo práticas manipuladoras e desonestas como, por exemplo, a promessa de garantir certas graças e certos resultados, a reivindicação de superioridade espiritual por parte dos que exercem certos carismas e, consequentemente, o descrédito por tais experiências – o que acaba prejudicando a outros cristãos e a outras Igrejas. Ademais, Católicos e Pentecostais não admitem qualquer forma de exercício dos carismas que venha a sugerir que os mesmos estejam acima da Palavra de Deus. Por tais razões, o Diálogo Internacional Católico-Pentecostal se propôs estudar três carismas, importantes para a vida da Igreja, mas que podem tornar-se fonte de equívocos e de tensões: profecia, cura e discernimento dos espíritos. Espera-se que esta reflexão conjunta possa subsidiar as Comunidades locais em suas discussões, levando a uma apreciação mais profunda e partilhada sobre os três carismas (profecia, cura, discernimento dos espíritos) e seu exercício.
  1. A) PROFECIA
  1. A Sagrada Escritura expressa o alto valor do carisma de profecia (cf. At 2,17-18; 1Cor 14,1.39). Aqueles que profetizam são divinamente chamados e inspirados pelo Espírito Santo para proclamar a mensagem que Deus lhes confiou (cf. 1Cor 12,10-11). Por vezes, a mensagem profética pode referir-se às ações que Deus cumpriu no passado; ou direcionar-se a situações do presente nas quais Deus convoca seu povo à santidade, fidelidade à Aliança e justiça social; ou ainda pode anunciar as promessas de Deus para o futuro. As palavras provenientes do carisma de profecia têm sua origem em Deus e destinam-se à edificação do povo de Deus (cf. 1Cor 14,3).
  1. PROFECIA NA ESCRITURA
  1. Ao longo da História da Salvação, Deus quis revelar-se a Si mesmo, dando a conhecer seu plano salvífico e sua proposta ao ser humano, de muitos modos; entre estes, também pela profecia (cf. Hb 1,1). O profetismo no Primeiro Testamento serve como pano-de-fundo para se compreender o carisma de profecia, no Novo Testamento. Deus chamou especificamente a algumas pessoas para que falassem em Seu Nome (cf. Êx 4,15-16; Is 6,1-13; Jer 1,4-10 etc.), pessoas que transmitiam Sua palavra e intercediam por Seu povo. Algumas vezes Deus revelou a mensagem através de sonhos e visões (cf. Jó 33,14-18; Is 6,1-13; Jer 1,11-13); em outas vezes, através de pensamentos, impressões e até “sussurros”, como a voz suave e delicada ouvida por Elias (cf. 1Rs 19,12); em outros casos a mensagem divina se fazia audível de maneira incisiva, como a voz que chamou o jovem Samuel (cf. 1Sm 3,1-18).
  1. Ainda que toda palavra profética genuína origine-se em Deus e é comunicada ao profeta mediante divina inspiração, a participação humana na profecia não deve ser negligenciada; pois os profetas expressavam a mensagem com termos que o povo pudesse compreender. O profeta recebia um sentir, uma visão ou um dito da parte do Senhor; então, transmitia isto por modos que refletiam sua própria linguagem, sua experiência pessoal, sua educação e contexto cultural. Com frequência, os profetas empregavam linguagem figurada, símbolos e até ações emblemáticas (Is 20,2-6; Jer 13,1-11; Os 1,2-8 e 3,1) que, às vezes, necessitavam ser interpretadas ou aplicadas a casos concretos (Os 12,10; Ez 20,45-49).
  1. Em muitos aspectos, os profetas do Primeiro Testamento atuavam como memória viva e consciência do povo, recordando aos israelitas a fidelidade de Deus, a vontade e a expectativa do Senhor a respeito deles, chamando-os repetidamente a deixar o pecado para amar a Deus com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças (cf. Dt 6,4), amando ainda o próximo como a si mesmos. Algumas vezes, sua mensagem constituía uma palavra de juízo para os recalcitrantes, que se obstinavam em pecar. Em outras ocasiões, sua mensagem suscitava a plena esperança nas promessas futuras (cf. Jr 32,36-41; Ez 11,17-21). Ocorriam também frequentes resistências ao apelo de conversão feito pelo profeta e até mesmo perseguição violenta à sua pessoa (cf. Is 6,9-10; Ne 9,26; Lc 11,49 e 13,34).
  1. O Povo de Deus era reiteradamente alertado sobre o risco de tornar-se presa de falsos profetas, cuja pretensão de anunciar a mensagem de Deus não tinha crédito, ou que se diziam inspirados divinamente sem de fato sê-lo (cf. Dt 13,1-5). Os confrontos entre verdadeiros e falsos profetas, como no caso de Jeremias e Hananias (cf. Jer 27,1 – 28,17), demonstram a necessidade do discernimento para se distinguir o que é verdadeiro, do que é falso.
  1. O Novo Testamento nos mostra que o tempo das profecias não se encerrou com a vinda de Cristo[5]. João Batista pode, certamente, ser visto como o último dos profetas na linha do Primeiro Testamento (cf. Is 40,3-5; Lc 16,16), apontando a Jesus como o cumprimento da esperança messiânica de Israel (cf. Jo 1,26-27 e 29-34). Enquanto Palavra de Deus encarnada, Jesus Cristo é, de fato, o cumprimento de toda a profecia bíblica, podendo ser considerado como o Profeta por excelência (cf. Lc 4,24 e 13,33; Jo 6,14 e 7,40). Ele não só anuncia a Palavra de Deus; mas é, Ele mesmo, esta Palavra em plenitude (cf. Jo 1,1-5; Hb 1,1-4).
  1. Com a vinda do Espírito Santo no dia de Pentecostes, toda a Igreja de tornou uma comunidade profética (cf. At 2,17-18). Todos os cristãos têm uma função profética e deles espera-se que sejam profetas em sentido amplo, proclamando o Evangelho de Cristo àqueles que os circundam. Contudo, há outros que recebem o carisma de profecia de um modo mais específico (cf. 1Cor 12,11.19; Rm 12,6). A profecia é um dos mais significativos carismas dados pelo Espírito Santo para a edificação da Igreja, especialmente através de palavras de exortação e consolação (cf. 1Cor 14,1-4). Paulo, de fato, exorta os cristãos a “buscar zelosamente” este carisma (1Cor 12,31; 14,1). Ademais, é no seio da comunidade de fé que os crentes se dispõem a receber, ouvir, discernir e interpretar a palavra profética (cf. 1Tes 5,19-22).
  1. O carisma de profecia tem sido dado não apenas a pessoas proeminentes, mas também aos simples crentes do povo de Deus. Por exemplo, Isabel (cf. Lc 1,41-45), Zacarias (cf. Lc 1,8-23 e 59-64), Simeão (cf. Lc 2,25-35) e Ana (cf. Lc 2,36-38) profetizaram, e proclamaram a grandeza de Deus e o cumprimento de Sua promessa redentora. Mesmo jovens moças, como as quatro filhas de Filipe (cujos nomes não são citados) também profetizavam (cf. At 21,9). Não há um padrão único para o exercício da profecia no Novo Testamento. Alguns eram profetas itinerantes, que viajavam de cidade em cidade proclamando sua mensagem, como Ágabo (cf. At 11,27-30; 21,10-14); outros eram membros permanentes de uma específica comunidade (cf. At 13,1; 1Cor 14,29-33).
  1. A Revelação dada a João pelo Senhor Ressuscitado (cf. Ap 1,3), por sua vez, assemelha-se muito aos escritos do Primeiro Testamento. O Livro emprega o simbolismo encontrado na literatura apocalíptica judaica, além de transmitir um grande número de mensagens de caráter profético, nas quais Cristo convoca os crentes e as igrejas à fidelidade e à perseverança (notadamente em Ap 2–3); ao mesmo tempo, a profecia os cumula de esperança nas promessas do Senhor (cf. Ap 19,9 e 21,3-8).
  1. A PROFECIA NA HISTÓRIA DA IGREJA
  1. Após o período apostólico, os dons proféticos continuaram a exercer seu papel na vida da Igreja, por séculos. É sabido que personagens como Inácio de Antioquia (cf. Carta aos Filadelfos 7,1-2) e Policarpo de Esmirna (cf. Martírio de Policarpo 5), profetizavam. O tema da profecia está presente também nos primeiros documentos litúrgicos e devocionais da Igreja (como na Didaqué 11,3-12; 13,1 e 3-4; e também O pastor de Hermas 11). Tais documentos estabeleciam orientações sobre a atividade dos profetas, além de fornecer às comunidades os critérios específicos para discernir entre quem seria verdadeiro ou falso profeta.
  1. Ao longo do século III, no contexto do Império Romano, havia textos cristãos repletos de referências proféticas. Destacam-se Ireneu (130-200 dC) na Gália: Demonstração da pregação apostólica 99 e Contra as heresias32.4; Justino Mártir (por volta de 100-165 dC) em Roma: Diálogo com Trifão 88.1; Tertuliano (180-253 dC) em Cartago: Tratado sobre a alma 2,3; 9,3-4; e Cipriano (200-258 dC), bispo de Cartago, com recorrentes referências a visões, sonhos e ao dom de profecia. O próprio Cipriano atesta ter experimentado visões úteis a orientar seu caminho pessoal (Cartas 10 [8] 4.1; 16 [9] 4.1; 58 [55] 5.2); ele também informa que os sínodos episcopais do Norte da África levaram em conta as mensagens oriundas de visões e profecias, quando fizeram indicações de nomes para os ofícios eclesiásticos (Cartas 39 [33] 1.1-2; 40 [34] 1.1). Por séculos o carisma de profecia seguiu manifestando-se entre fiéis leigos e ministros ordenados, tanto nas comunidades locais quanto em mosteiros e conventos.
  1. Houve, porém, casos de grupos problemáticos, quando os que diziam falar da parte de Deus mediante profecia suscitaram tensões, ao propor sua profecia pretensiosamente, em confronto com a legítima autoridade da Igreja. Os Montanistas foram um desses grupos. Os exageros montanistas – com a consequente desconfiança a respeito dos carismas por boa parte dos líderes da Igreja – comprometeram seriamente a compreensão e o futuro exercício dos dons proféticos. De fato, ao mesmo tempo em que cessava a ameaça montanista, o exercício do carisma profético fazia-se mais raro.
  1. Séculos depois, os teólogos da Escolástica, como Tomás de Aquino, afirmaram a existência do carisma de profecia, mas sem fazer referência a nenhum profeta de seu próprio período (cf. Summa Theologica II-II, 171-175). Já os reformadores protestantes, de seu lado, propuseram que o carisma de profecia se referia tão somente à pregação. João Calvino escreveu que “a profecia é simplesmente o correto entendimento da Escritura e o dom particular de explicá-la” (Sobre a Carta aos Romanos 12,6)[6]. Martinho Lutero criticou os “profetas celestiais” de sua época, dizendo que se seguisse apenas a Cristo “Voz vivente vinda dos céus”: as pregações desses homens “só servem para produzir consciências confundidas, inquietas e pesadas, para que seja admirada sua própria capacidade; e Cristo, enquanto isto, é esquecido” (Carta aos cristãos de Estrasburgo contra o espírito entusiasta 40,70)[7].
  1. Os movimentos Pentecostal e Carismático iniciados no século XX, por sua vez, favoreceram uma nova recepção dos carismas, antes frequentemente ignorados ou até excluídos, em certos espaços da Igreja. Em decorrência do testemunho desses movimentos contemporâneos, a profecia tem sido admitida mais amplamente, como um dos dons pelos quais Deus capacita a Igreja para o ministério (cf. Ef 4,11-12). Renova-se a expectativa de que este dom seja concedido, e de que o Senhor possa falar através de palavras proféticas mais periodicamente à comunidade de fé. As manifestações de profecia expressam a dimensão profética de toda a Igreja, tornando-a mais consciente desta dimensão em sua vida, e fazendo-a mais conforme ao testemunho das Escrituras.
  1. A PROFECIA NA VIDA DA IGREJA
  1. Juntos, Católicos e Pentecostais ponderam que o dom de profecia tem um sentido amplo, e um sentido mais estrito. Em sentido amplo, todo cristão participa da função profética, sacerdotal e real de Cristo; e dele se espera que se engaje no serviço profético do Povo de Deus. Os fiéis cristãos exercem esta função profética ao proclamar a vinda do Reino de Deus por suas palavras, pela evangelização e pelo culto, promovendo a justiça social e enfrentando muitos desafios advindos da realidade cultural. Eles também a realizam, ao testemunhar Jesus Cristo como Senhor no contexto de sua própria vocação e nos acontecimentos de sua vida cotidiana. Dentre muitos exemplos, os Católicos entendem que a vida consagrada (como monge e monja, irmã e irmão religioso, ou leigo consagrado) é em si mesma uma profecia da vinda do Reino e das núpcias do Cordeiro (cf. Ap 19,7). De modo semelhante, o compromisso dos cristãos com a promoção da justiça e da paz, e seu testemunho diário dos valores do Reino de Deus, são igualmente reconhecidos como proféticos.
  1. Em sentido estrito, há quem exerce o carisma de profecia comunicando uma palavra vinda de Deus, não vagamente, mas em caráter ad hoc – ou seja: tal palavra é endereçada a pessoas de um determinado tempo, num contexto específico. Esta manifestação pode endereçar-se a indivíduos, a uma comunidade, ou a uma congregação reunida para o culto.
  1. A profecia deve ser condizente com as Escrituras e o ensino da Igreja. Uma palavra profética não poderá adicionar nada ao depósito da fé, isto é, a quanto Deus mesmo revelou de uma vez por todas (cf. Hb 1,1-2). Contudo, a profecia pode oferecer novas percepções da Revelação divina, tornando-a mais explícita, aplicando-a no contexto atual, interpretando os sinais dos tempos, sinalizando eventos futuros, recordando os feitos salvadores que Deus realizou, encorajando os fiéis ou exortando-os à conversão. A profecia pode dar-se também na forma de visões, sonhos ou palavras de sabedoria e conhecimento.
  1. Católicos e Pentecostais concordam que, na Igreja de hoje, as pessoas que recebem o carisma de profecia são chamadas a viver seu caráter de Povo de Deus de uma maneira coerente com o dom recebido. O exercício do ministério profético na Igreja implica um compromisso com o ensino e a correção; aqueles que profetizam devem manter-se na disposição de ter suas palavras proféticas examinadas pelo Povo de Deus (cf. 1Cor 14,29.38).
  1. Juntos, Católicos e Pentecostais também concordam que uma atitude de abertura e expectativa quanto aos dons proféticos e outros carismas é disposição necessária para que haja, na Igreja, o devido espaço para se cultivar e exercer os mesmos carismas. Ainda que Deus use de soberana liberdade, agindo quando escolhe agir (cf. Dt 13,4-5; Jo 11,49-52), nós podemos nos abrir à recepção de Seus dons. Jesus admoesta seus seguidores a pedir, buscar e bater à porta, indicando deste modo que a receptividade dos discípulos é um elemento-chave para a acolhida do Espírito: “Pedi e vos será dado; procurai, e encontrareis; batei, e vos será aberto. De fato, todo o que pede, recebe; quem procura, encontra; a quem bate, se abrirá. […] Se vós, pois, que sois maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais o Pai celeste dará o Espírito Santo aos que O pedirem!” (Lucas 11,9-10.13).
  1. Os participantes deste Diálogo reconhecem que é preciso tratar com aquelas teologias que marginalizam o carisma de profecia ou dizem que tal carisma não tenha mais nenhuma utilidade, opinando que as Escrituras teriam tomado o seu lugar. De nossa parte, cremos que o Espírito Santo esteja sempre em ação, ainda que se trate de modos de agir pouco notados por aqueles mesmos entre os quais Ele opera. Em alguns ambientes, fechados a qualquer expectativa de que o Espírito Santo se expresse pelo carisma profético, pode ocorrer que os indivíduos e as comunidades, em tal atitude, careçam das condições para ouvir Sua voz nas profecias, ainda que Ele fale; ou o Espírito pode optar em não manifestar-se por tal dom. Pois o Espírito de Deus é livre para agir conforme lhe apraz, como Jesus proclamou, comparando o mover do Espírito ao soprar do vento: “O vento sopra onde quer; tu ouves sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece com todo aquele que nasceu do Espírito” (Jo 3,8).
  1. No ensino de Jesus, a profecia está vinculada ao martírio. O martírio é o mais completo testemunho de Cristo que alguém pode dar, só possível pela consolação do Espírito Santo; neste sentido, o martírio possui um eloquente caráter carismático-profético. Jesus predisse a respeito dos tempos de perseguição e instruiu seus discípulos para que – quando fossem interrogados diante das sinagogas, governantes e reis – não se preocupassem com a resposta que deveriam dar: “Quando vos entregarem, não vos preocupeis em saber como falar ou o que dizer; o que tiverdes de dizer vos será concedido naquela hora, pois não sereis vós a falar: é o Espírito do vosso Pai que falará em vós” (Mt 10,19-20). Nos dias da Era Patrística, esta promessa foi constantemente evocada para fortalecer os cristãos, quando, diante dos Governantes e seus oficiais, confessavam ser fiéis seguidores do Cristo (cf. CIPRIANO, Cartas 10 [8] 4.1; 58 [55] 5.2; 76,5/ 81 [82] 1).
  1. A perseguição dos cristãos tem sido uma realidade desde os primeiros tempos da História da Igreja; e é um fato triste e deplorável que a mesma se mantenha em nossos dias… Entretanto, como Tertuliano afirmou de modo memorável, “o sangue dos mártires é semente de novos cristãos” (Apologia 50,13)[8]. Católicos e Pentecostais afirmam juntos que os cristãos que padecem discriminação, perseguição e martírio, onde quer que estejam, por confessarem a Cristo em palavras e ações, exercem deste modo o dom de profecia. Em todas as considerações sobre o ecumenismo do martírio, a presença do Espírito Santo e do carisma de profecia deve ser reconhecida.
  1. CURA

 

  1. O Novo Testamento inclui a cura entre os carismas concedidos pelo Espírito Santo para a edificação da Igreja (cf. 1Cor 12,9.28.30). A existência deste carisma – o qual revela o amor e a compaixão de Deus pelos doentes – é razão de profunda gratidão ao Senhor. Convém lembrar que este carisma não se refere exclusivamente à cura física; mas também a outras formas de cura, no âmbito relacional, psicológico, emocional e espiritual.
  1. A CURA NAS ESCRITURAS
  1. A cura é um componente da Revelação bíblica, no Primeiro e no Novo Testamentos. No Primeiro Testamento, Deus revela-se a Si próprio como o Senhor da Aliança que cura seu Povo: “Eu sou o Senhor, que te cura” (Êx 15,26; também Êx 23,25-26). Sua promessa concerne à integridade da vida humana, quer física, quer espiritual: a obediência a Deus resulta em bênção divina, com boa saúde e vida longa (cf. Dt 7,12-15; Prov 3,7-8), enquanto que a desobediência resulta em maldição, como doenças e morte prematura (cf. Dt 28,15-68). Mas embora a aflição da enfermidade esteja entre os males devidos ao pecado (cf. Sl 38,3-4; 107,17), seria errado presumir que toda doença resulte necessariamente do pecado pessoal – como nos esclarece o Livro de Jó.
  1. O Primeiro Testamento menciona alguns aspectos da cura individual, incluindo curas de mulheres estéreis, como Sara (cf. Gn 21), Rebeca (cf. Gn 25,21, Raquel (cf. Gn 29,31; 30,22), a mãe de Sansão (cf. Jz 13) e Ana (cf. 1Sm 1). Por meio dos profetas Elias e Eliseu, Deus curou doenças como a lepra (cf. 2Rs 5,17-18) e até mesmo trouxe à vida quem já havia morrido: o filho da viúva de Sarepta (cf. 1Rs 17), o filho da mulher sunamita (2Rs 4) e o homem lançado na sepultura de Eliseu (cf. 2Rs 13,21). Durante o terrível período do exílio na Babilônia, os profetas falaram da futura restauração do Povo de Deus e da vinda do Messias, o Servo do Senhor (cf. Is 42,1; 53,11); e um dos sinais mais eloquentes do advento do Messias será a manifestação de curas milagrosas (cf. Is 35,4-6; 42,6-9; 61,1).
  1. Os Evangelhos atestam que essas promessas cumpriram-se plenamente em Jesus: Ele proclamou o Reino de Deus e manifestou sua presença por meio de milagres, curas e libertações (cf. Mt 4,23; Mc 1,34; Lc 6,17-19). No ministério público de Jesus as curas ocupam lugar relevante, em testemunho da radical novidade do Reino de Deus. “Percorrendo toda a Galileia, Ele ensinava nas sinagogas, proclamada a Boa Nova do Reino e curava toda doença e enfermidade entre o povo” (cf. Mt 4,23). No seu discurso inaugural, em Nazaré, Jesus proclamou o jubileu escatológico, anunciando a libertação das amarras do pecado, de Satã e das doenças (cf. Lc 4,18-19). As curas que Ele opera decorrem de sua própria obra redentora (cf. Mt 8,16-17, conforme Is 53,4-5). As curas constituem uma revelação da misericórdia e compaixão de Deus por aqueles que sofrem, tendo ainda o caráter de sinal antecipador de Sua definitiva vitória sobre o mal, pela Cruz e Ressurreição. Assim, as curas preanunciam a nova criação pela qual a humanidade será restaurada, alcançando a vida em plenitude. Neste sentido, o Apocalipse fala da árvore da vida no Reino dos céus, cujas folhas servem para curar as nações (cf. Ap 22,2).
  1. Em muitas ocorrências de cura, o Evangelho enfatiza a importância da fé de quem a recebe. Jesus pergunta: “Crês tu que eu possa fazer isto?” (Mt 9,28); e exorta: “Não teme, mas crê” (Mc 5,36). Muitas vezes Ele declara àqueles a quem curou: “Tua fé te salvou” (Mt 9,22; Mc 5,34 e 10,52; Lc 7,50; 8,48; 17,19 e 18,42). As curas dão a Jesus a oportunidade de ensinar sobre a fé (cf. Mt 8,5-13; 17,14-21) e a obediência para com Deus (cf. Mt 7,21-23; 8,2-4; 12,43-45). As curas confirmam que Ele é o único que tem autoridade para perdoar pecados (cf. Mt 9,1-8), tendo vindo ao mundo para resgatar o que estava perdido (cf. Mt 8,2-4; 9,20-22; 15,21-28; Lc 7,11-17; 13,10-17; 17,11-19).
  1. O Evangelho indica que a influência de maus espíritos é, por vezes, um fator que contribui para as doenças ou debilidades da pessoa. Após curar uma mulher encurvada havia dezoito anos, Jesus comentou que, ao longo deste tempo, ela tinha sido presa de Satã (Lc 13,16). Algumas curas que Ele operou – livrando a pessoa de um demônio mudo (Mt 9,32-33; Lc 11,14), de um demônio cego e mudo (Mt 12,22) e ainda de um espírito surdo-mudo, no caso do jovem epiléptico (Mt 17,14-18; Mc 9,25) – sugerem que, nesses casos, as aflições padecidas tinham um motivo demoníaco subjacente.
  1. O mandato de Jesus para que seus apóstolos proclamem o Reino incluía a ordem de curar os enfermos e realizar obras eficazes pelo poder de Deus (cf. Mt 10,1.7-8). Mais tarde, o mesmo Jesus concedeu poder de cura aos setenta discípulos, enviados dois a dois (cf. Lc 10,1-12). Após a Ressurreição, o Senhor menciona a cura dos enfermos pela imposição das mãos como um dos sinais que acompanharão os crentes em sua missão de anunciar o Reino de Deus (cf. Mc 16,18).
  1. Os Atos dos Apóstolos demonstram que este mandato de Jesus cumpriu-se na Igreja nascente, logo após o derramamento do Espírito Santo em Pentecostes, por Quem os discípulos foram capacitados a dar testemunho do Senhor (cf. At 1,8 e 2,1-4). As curas feitas “em nome de Jesus” – isto é, por Sua presença e poder – eram um componente importante do ministério da Igreja apostólica, manifestas especialmente através de Pedro (At 2,43; 3,1-8; 5,12.15; 9,27.32-42) e Paulo (At 14,3; 16,7; 19-11-12). Houve também discípulos dos quais o Senhor serviu-se para curar os enfermos, como Filipe e Ananias (cf. At 8,7-8; 9,17-18).
  1. As Cartas do Novo Testamento indicam que as curas constituíam uma realidade permanente na vida da Igreja. Paulo apresenta a cura como um carisma que o Espírito Santo concede a algumas pessoas de modo específico (cf. 1Cor 12,9.28.30); mas podem ocorrer igualmente através da oração e unção ministradas pelos presbíteros da Igreja (Tg 5,14-15), bem como pela oração de um simples crente (cf. Tg 5,16). Deste modo, o Novo Testamento nos mostra que o ministério de cura se operava comumente, como parte integrante da vida da Igreja.
  1. A CURA NA HISTÓRIA DA IGREJA
  1. Os escritos dos Pais da Igreja demonstram que curas, exorcismos e milagres continuaram a ter lugar nos primeiros séculos do Cristianismo. Os textos de Justino, Orígenes, Ireneu e Tertuliano, por exemplo, mostram que curas e exorcismos ocorriam com certa frequência, realizados por cristãos comuns, especialmente no contexto da evangelização. Ireneu escreveu:

Em nome de Jesus, seus verdadeiros discípulos, tendo dele recebido a graça, promovem o bem dos demais, cada qual conforme o dom recebido. Alguns expulsam demônios, com tanta certeza e verdade que, muitas vezes, aqueles que foram purificados destes maus espíritos creem em Cristo e se unem à Igreja. Outros manifestam presciência de coisas por vir: eles têm visões e proferem profecias. Outros, ainda, curam os enfermos impondo-lhes as mãos, e os enfermos são restaurados. Além disso, é verdade que até mortos ressurgiram e permaneceram entre nós por muitos anos (IRENEU, Adversus haereses, Livro II: 32,4)[9].

  1. No curso dos tempos, o ministério de exorcismo tornou-se restrito àqueles especialmente autorizados para exercê-lo. Consolidou-se, também, uma tendência crescente de atribuir o carisma da cura às pessoas de excepcional santidade, ou monges devotados à vida ascética.
  1. No subsequente desenvolvimento do Cristianismo na Europa, curas e milagres continuaram a fazer parte da vida cristã. Entre os católicos, a crença nas curas milagrosas se manteve através dos séculos, especialmente junto aos santuários e pelo recurso à intercessão dos santos. No período moderno, contudo, o estabelecimento da Ciência levou a uma tendência generalizada de considerar a doença e a cura em termos estritamente fisiológicos. A partir da Reforma, os cristãos protestantes tenderam a negligenciar ou até negar as curas miraculosas, muitas vezes em reação à reivindicação católica dos milagres. O Iluminismo, com sua rejeição da transcendência, levou ao decorrente ceticismo por tudo o que possa ser miraculoso.
  1. Uma nova ênfase nas curas surgiu entre os Protestantes do século XIX, com o Movimento de Santidade (Holiness Movement), sendo posteriormente intensificada com a chegada do Movimento Pentecostal no século XX. Em suas proposições, os pentecostais salientam, particularmente, a íntima ligação que há entre as curas e a obra redentora de Jesus, que nelas se expressa (cf. Is 53,4-5; Mt 8,16-17). Entendem, portanto, que as curas devem fazer parte do anúncio do Evangelho.
  1. CURA NA VIDA DA IGREJA
  1. Juntos, Pentecostais e Católicos afirmam que Cristo continua a curar nos dias de hoje e admitem que isto possa ocorrer de modo miraculoso. A inteira obra redentora de Cristo pode ser compreendida como uma obra de cura, visto que Ele sana a humanidade de toda ruptura causada pelo pecado, incluindo – em sentido último – a própria morte.
  1. A cura é uma dimensão constitutiva do ministério da Igreja: pode realizar-se por meio dos que exercem o ministério de cura, como também pela fé e oração do simples fiel. Os Católicos reconhecem ocorrências de cura pela intercessão dos santos – especialmente de Maria, a Mãe do Senhor (cf. Lc 1,43), em santuários como Lourdes (França) – e também por meio dos sacramentos, sobretudo a Eucaristia, a Reconciliação e a Unção dos Enfermos. Por sua vez, a maioria dos pentecostais crê que a cura pode ser alcançada pela comunhão na Ceia do Senhor; é também uma prática comum entre pentecostais ungir as pessoas com vistas à cura. Muitos pentecostais enviam lenços antes embebidos com óleo, ou sobre os quais se tenham feito intercessões por cura, para aqueles que se encontram enfermos, crendo que tais gestos sejam coerentes com a prática de Paulo em Atos 19,11-12.
  1. No contexto da proclamação do Evangelho, as curas se revestem de peculiar significado, à medida que atestam o amor de Deus e a eficácia de seu Reino. Com efeito, o mandato de Jesus para que seus discípulos proclamassem o Evangelho em palavras, sinais e prodígios, continua válido em nossos dias (cf. Mc 16,17-18). Semelhante aos feitos do Novo Testamento, também a evangelização de novas terras, ao longo da História da Igreja, tem sido acompanhada de muitas e notáveis curas.
  1. Católicos e Pentecostais reconhecem que Deus também pode curar as pessoas por meio de recursos médicos ordinários. O serviço pastoral para com os enfermos, incluindo os cuidados de saúde e de aconselhamento, é pois um importante componente do ministério da Igreja (cf. Mt 25,36). Tais serviços são um modo de cooperar com o agir curador de Deus.
  1. Em todo caso, afirmar a realidade da cura divina não significa negar a realidade da dor humana, nem o fato de que Deus muitas vezes tira grandes bens até da experiência do sofrimento. Pentecostais e Católicos reconhecem que o sofrimento, quando aceito na fé, tem a capacidade singular de conformar mais plenamente a pessoa a Cristo. Perseverar pacientemente na fé, em meio à dor, é uma fonte misteriosa de graça para quem sofre e para os demais (cf. 2Cor 4,11-12; Cl 1,24).
  1. A cura é uma livre dádiva de Deus; não algo que se conquiste ou se mereça. A fé esperançosa, contudo, pode certamente dispor a pessoa a receber a cura. É fato recorrente que a cura obtenha o crescimento da fé, tanto daquele que a recebe quanto dos demais que a testemunham. De igual modo, perdoar e apaziguar os ressentimentos pode abrir a pessoa ao recebimento da cura (cf. Mc 2,1-12). Por vezes, ao orar pelo doente, o discernimento dos espíritos servirá para constatar se o sujeito necessita, ou não, ser liberto da influência de maus espíritos.
  1. Note-se que o carisma de cura não é necessariamente um sinal de santidade (cf. Mt 7,22-23; At 3,12). Por outro lado, a santidade favorece uma maior abertura da pessoa ao Espírito Santo e a seus dons. Além disso, o carisma de cura não se destina ao uso isolado, mas é exercido em comunhão com a Igreja.
  1. Às vezes, pretensas curas podem ser falsificadas; e curas genuínas podem ser usadas erroneamente para fins de prestígio, vantagem pessoal ou proselitismo. Pelo fato de o carisma de cura comportar riscos de exagero e manipulação de pessoas vulneráveis, é necessário o discernimento prudente e contínuo. Nos casos em que se reivindique a cura, é aconselhável uma verificação por parte de profissionais médicos, na medida do possível (cf. Mc 1,44); se a cura for confirmada, que não se declarem outras curas além do que foi efetivamente constatado. Nas ocorrências de verdadeira cura, a reação mais acertada é o louvor e a ação de graças a Deus (cf. Lc 17,17-18). É também oportuno preparar os enfermos para o caso de suas orações não serem atendidas do modo que esperam. Por vezes a cura pode expressar-se na serena aceitação do próprio sofrimento (cf. 2Cor 12,8-10), ou na entrega confiante da vida a Deus, em situações de morte iminente.
  1. C) DISCERNIMENTO DOS ESPÍRITOS
  1. DISCERNIMENTO DOS ESPÍRITOS NA ESCRITURA
  1. Católicos e Pentecostais entendem o discernimento dos espíritos como o carisma de discernir a fonte ou origem de uma manifestação espiritual – a qual pode provir do Espírito Santo, de um mau espírito, ou do mero espírito humano. Este carisma capacita o Povo de Deus para distinguir o que é verdadeiro daquilo que é falso ou errôneo. O que é verdadeiro provém do Espírito de Deus; já o que é falso provém de outra fonte. Católicos e Pentecostais expressam uma acordo geral quanto à interpretação das passagens bíblicas referidas ao discernimento[10]. Contudo, notam-se algumas diferenças nos modos de aplicar este carisma na sua vida cristã diária.
  1. Ainda que o termo discernimento não tenha um uso frequente nas Escrituras, o ensino e os exemplos bíblicos sobre o mesmo são abundantes. A importância de se distinguir entre verdade e erro, e entre verdadeiro e falso profeta, é vivamente retratada nas páginas do Primeiro Testamento (cf. 1Rs 18,20-40; Jr 23,9-22; Ez 13,1-23), no ensino de Jesus nos Evangelhos (cf. Mt 7,15-20) e na experiência da Igreja primitiva (por ex. Ananias e Safira, em At 5,1-11; ou o caso da jovem escrava com espírito de adivinhação em At 16,16-18). Dons do Espírito Santo eram exercidos em vista do crescimento do inteiro Corpo de Cristo, para o bem das pessoas em geral e para a conservação da caridade – que constitui a verdadeira medida de todos os carismas (cf. 1Cor 13).
  1. Um texto bíblico chave para o tema do discernimento encontra-se na lista de carismas de Paulo, em 1Cor 12,8-11: “A um o Espírito concede a profecia; a outro, o discernimento dos espíritos [diakríseis pneumáton]. […] Mas tudo isso é o único e mesmo Espírito que o realiza, distribuindo a cada um seus diversos dons, segundo a Sua vontade” (1Cor 12,10-11). Paulo não considera apenas os dons portadores de alguma mensagem de Deus para a Igreja (palavra de ciência, palavra de sabedoria, profecia, línguas e interpretação de línguas), mas também os dons que discernem a autenticidade dessas mensagens, sempre necessitadas de discernimento por serem proferidas por homens e mulheres falíveis.
  1. Em 1Coríntios 14, onde Paulo instrui a comunidade a respeito da ordem nos cultos públicos de adoração, ele parece propor o discernimento como um carisma tão recorrente quanto a profecia; este seria necessário sempre que os dons proféticos fossem exercidos, para que a Igreja pudesse examinar o quanto fossem espiritualmente edificantes para a assembleia dos crentes. A instrução de Paulo era esta: que dois ou três pudessem profetizar na assembleia de culto, sendo examinados, em seguida, pelo discernimento dos demais ali reunidos: “Quanto às profecias, dois ou três tomem a palavra e os outros julguem” (1Cor 14,29). Assim, um certo grau de discernimento imediato era tido como indispensável nos casos de exercício espontâneo dos carismas numa assembleia de culto.
  1. A prática disciplinada do discernimento ajuda a comunidade reunida a manifestar livremente outros carismas, numa atmosfera de acolhida e encorajamento, na qual os fiéis prestam conta de seus atos em corresponsabilidade. Isto se confirma na clara exortação de Paulo à Igreja em Tessalônica: “Não extingais o Espírito. Não desprezeis as palavras dos profetas; examinai tudo com discernimento: conservai o que é bom” (1Ts 5,19-21). Os crentes são convidados a viver na liberdade do Espírito Santo, exercendo os carismas com a plena confiança de que o mesmo Espírito os agracia com o dom de discernir os espíritos, protegendo-os das falsas doutrinas e preservando-os das divisões.
  1. Nem toda profecia ou manifestação carismática deverá ser aceita sem o devido exame. Jesus advertiu seus discípulos sobre falsos profetas que se apresentariam como lobos em pele de cordeiro (cf. Mt 7,15). O apóstolo Paulo falou de lobos ferozes que não poupariam o rebanho (cf. At 20,29). Também João, em sua 1ª Carta, alerta a comunidade sobre a presença de falsos profetas que – sem o adequado discernimento dos espíritos – causariam danos à Igreja (cf. 1Jo 2,18.22 e 4,1). João destaca a importância do discernimento, pela verificação da autenticidade e ortodoxia daqueles que pretendem ter uma mensagem para a Igreja:

Caríssimos, não deis crédito a qualquer espírito, mas examinai os espíritos, para ver se são de Deus; pois muitos profetas da mentira espalharam-se pelo mundo. Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa Jesus Cristo vindo na carne, é de Deus; e todo espírito que divide Jesus, não é de Deus. […] Nisto reconhecemos o Espírito da verdade e o espírito do erro. (1Jo 4,1-3.6)

  1. Seja ao longo da História, seja em nossos dias, Católicos e Pentecostais partilham o desafio de crescerem na justa compreensão e prática dos carismas. Neste sentido, a Igreja deverá seguir examinando a quantos dizem ter recebido carismas, para discernir se estes provêm da parte de Deus. O discernimento salvaguarda a ortodoxia, uma vez que seu adequado exercício conduzirá sempre à confissão e ao testemunho fidedignos da pessoa e obra de Jesus Cristo.
  1. O EXERCÍCIO DO CARISMA DE DISCERNIMENTO DOS ESPÍRITOS
  1. Juntos, Pentecostais e Católicos afirmam a importância das Escrituras no processo de discernimento, continuamente necessário à vida da Igreja. As diferentes ênfases no exercício do discernimento não decorrem da Bíblia em si, mas de algumas distinções básicas entre Católicos e Pentecostais, como o papel da Tradição, a valorização da espiritualidade pessoal ou comunitária, e os diferentes níveis de expectativa quanto às manifestações carismáticas do Espírito Santo.
  1. Em geral, os Católicos tendem a usar o termo “discernimento” em sentido mais amplo, como o processo dinâmico de busca da verdade a da vontade de Deus. Nesta perspectiva, o discernimento ocorre quando o Espírito Santo estabelece um misterioso diálogo com a pessoa, guiando-a em sua resposta a Deus. O exercício constante, habitual, do discernimento propicia uma crescente maturidade na vida cristã, “para que possais distinguir qual é a vontade de Deus: o que é bom, o que lhe é agradável, o que é perfeito” (Rm 12,2).
  1. Já os Pentecostais tendem a enfocar o discernimento no sentido mais estrito de “discernimento dos espíritos” (1Cor 12,10). A maioria dos Pentecostais dá mais importância ao discernimento enquanto carisma, do que ao discernimento enquanto processo incorporado ao cotidiano eclesial (cf. At 6,1-6 e 15,1-35); contudo, todos reconhecem que este processo é essencial para se discernir a vontade de Deus, bem como os direcionamentos da comunidade (cf. At 15,6-7). Assim como os Católicos, os Pentecostais preocupam-se em conhecer e cumprir a vontade de Deus. Eles buscam a divina vontade pela oração, pelo estudo bíblico e pela consulta a outros irmãos crentes e líderes mais maduros na fé; nesta busca, consideram também os propósitos pessoais, o que se mostra mais oportuno, as circunstâncias, etc. Embora o termo discernimento nem sempre seja usado para indicar esta busca da vontade de Deus, trata-se de efetivo discernimento. Dos ministros pentecostais – na qualidade de pastores do rebanho – espera-se que ofereçam orientação às suas comunidades, provendo-as dos meios adequados para iniciar um processo de discernimento, e respondendo, em última instância, às decisões que forem tomadas.
  1. Entre os Pentecostais, aqueles que são reconhecidos por sua habilidade em discernir – seja por terem demonstrado a capacidade em distinguir os espíritos, seja por sua comprovada maturidade espiritual – são, geralmente, pessoas de esmerado conhecimento da Palavra de Deus, “cujos sentidos têm sido exercitados para discernir tanto o bem quanto o mal” (Hb 5,14). Este perfil pode incluir os membros do corpo pastoral da Igreja, como presbíteros (anciãos), e outras pessoas reconhecidas por sua sabedoria e confiabilidade. Com isto, não se nega que o discernimento dos espíritos seja realmente um carisma; mas se admite que o fato de ser um carisma, não exclui, no sujeito, os componentes da racionalidade.
  1. Na comunidade pentecostal, o discernimento pode seguir as vias racionais do pensamento (cf. Mt 7,20; At 13,1-3 e 15,6-21; 1Ts 5,19-22; 1J0 4,1-3), ou pode ter uma natureza mais trans-racional e intuitiva (cf. At 16,16-18). Há também, em determinados grupos, o discernimento ao modo de 1Cor 14,29: alguém profetiza, seguido de outros que se aplicam em ponderar o que este diz. No nível local, o processo de discernimento se realiza, comumente, de modo proveitoso e salutar para a comunidade de fé. Dá-se, geralmente, nos seguintes contextos: quando se executa oração verbal e intercessão, nos momentos de oração em comum, ou quando as pessoas proferem seu testemunho; quando ocorrem manifestações carismáticas, especialmente profecias, palavra de sabedoria, palavra de ciência, dom de línguas (com ou sem interpretação); nos momentos de oração pessoal junto ao altar; na leitura bíblica com partilha em grupo; no ato de pregar a Palavra de Deus, ou de ouvir a Palavra de Deus pregada. Em tais situações, pode ser perceptível uma palavra ou ação na qual se discerne a autoridade do Espírito Santo, que ali age. Nesses casos a autoridade do Espírito é compreendida tipicamente em seu caráter ad hoc, ou seja, limitada à ocasião e ao contexto a que se refere.
  1. Os Pentecostais reconhecem que, em geral, na sua História, têm priorizado a prática do discernimento; não houve a preocupação assídua de se elaborar uma reflexão teológica mais minuciosa a respeito. Reconhecem, também, que o exercício do discernimento em suas Igrejas nem sempre é examinado com rigor, de modo a ser solidamente comprovado. No meio pentecostal, o hábito de pressupor ou buscar a imediata manifestação da presença do Espírito Santo pode, eventualmente, criar a expectativa de que o carisma de discernimento se opere de modo automático e rotineiro. Este hábito indica, para a comunidade pentecostal, que é preciso elaborar um melhor ensino sobre o exame dos espíritos, com adequada disciplina comunitária, e o constante acompanhamento daqueles a quem foi confiado ajuizar e tomar decisões com discernimento.
  1. Os Católicos acreditam que o discernimento dos espíritos é necessário para se verificar a procedência divina dos demais carismas (cf. Constituição dogmática “Lumen gentium” [A luz das gentes] sobre a Igreja 12; também Catecismo da Igreja Católica n. 800-801). Além disso, em concordância com 1Cor 12,10, acreditam que o discernimento é em si mesmo um carisma: um dom do Espírito Santo, e não apenas um processo social-comunitário de expediente meramente humano. Embora a Igreja Católica não tenha desenvolvido um ensino especificamente sobre o carisma de discernimento dos espíritos, ao longo de sua História este carisma tem se realizado efetivamente, de formas variadas. Deste modo, o carisma de discernimento dos espíritos tornou-se um elemento importante da herança espiritual da Igreja Católica.
  1. No exercício efetivo deste carisma não há um modelo geral ou um padrão único. Muitas vezes o discernimento dos espíritos acontece integrado a um processo mais amplo de discernimento, compreendido como busca da verdade e da vontade de Deus nos níveis pessoal e eclesial.
  1. Os Católicos acreditam que os ministros ordenados têm uma responsabilidade própria em discernir e reconhecer os carismas manifestos entre os fiéis: “pondo à prova os espíritos para ver se são de Deus, descubram com o senso da fé, reconheçam com alegria e incentivem com entusiasmo os multiformes carismas dos fiéis leigos, dos dons modestos aos mais elevados” (Decreto “Presbyterorum ordinis” sobre o ministério e a vida dos presbíteros 9)[11]. O carisma de discernimento é exercido pelo ministro ordenado especialmente na orientação espiritual dos fiéis, incluindo o Sacramento da Reconciliação. Como um carisma, entretanto, o discernimento dos espíritos pode ser concedido pelo Espírito Santo a qualquer um dos crentes. Pois o discernimento é uma prática na qual o clero e os leigos têm papéis complementares. Os que são dotados do carisma de discernimento dos espíritos servem a Igreja em comunhão com os Pastores, os quais têm a responsabilidade última de discernir os carismas. Além disso, em décadas recentes, os Católicos têm vivido uma renovada experiência dos carismas através da Renovação Carismática Católica[12], na qual o carisma de discernimento dos espíritos é exercido de maneira recorrente.
  1. Católicos e Pentecostais reconhecem que quanto mais uma pessoa vive próxima a Deus, mais apta estará para discernir a Sua vontade e compreender o que é verdadeiro. Quanto mais a pessoa “caminha no Espírito” (Gl 5,25), tanto mais facilmente poderá reconhecer as moções e as operações do mesmo Espírito. Ao longo da História, Deus tem abençoado a Igreja com homens e mulheres santos, dotados de uma percepção intuitiva sobre aquilo que provém de Deus. Com frequência, os casos de efetivo discernimento dos espíritos brotam da íntima relação que o fiel mantém com o próprio Deus que distribui os carismas.
  1. Reconhecemos que, na Igreja como um todo, a renovada atenção às manifestações carismáticas traz consigo a necessidade de discernir sua autenticidade, de modo a preservar as manifestações genuínas em face daqueles que simplesmente as mascaram como tal. No contexto global das Igrejas, tanto Católicos quanto Pentecostais são desafiados a vivenciar os carismas de modo apropriado, particularmente o carisma de discernimento dos espíritos. São frequentes as situações em que Pentecostais e Católicos necessitam de melhor instrução para distinguirem o que é, de fato, palavra vinda de Deus, do que seria apenas expressão de seus piedosos desejos. Portanto, a Igreja deve continuar examinando os carismas, para discernir se provêm, ou não, de Deus.
  1. SUPERVISÃO PASTORAL

DO EXERCÍCIO DOS CARISMAS

  1. Católicos e Pentecostais acolhem e se alegram com a grande variedade de carismas nas duas tradições – um sinal da vitalidade da Igreja. Juntos também reconhecem seu chamado a ser bons despenseiros desses dons: “Como bons administradores da multiforme graça de Deus, cada um coloque à disposição dos outros o dom que recebeu” (1Ped 4,10).
  1. Semelhante ao que Paulo já advertia com relação à Igreja primitiva, também hoje o exercício dos carismas pode tornar-se um eventual fator de tensões e dissensos entre os cristãos. Com vistas a tratar efetivamente dos desafios pastorais que a prática dos carismas tem levantado, as Comunidades cristãs e seus líderes exerçam a devida supervisão, advirtam sobre a responsabilidade de cada um quanto à própria conduta (cf. 1Cor 14,26-33; 1Ts 5,19-22) e apliquem-se “a guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz” (Ef 4,3).
  1. Deus constantemente “nos põe à prova” (1Ts 2,4); em última instância é Ele quem julga e todos os discernimentos humanos Lhe são submetidos. Ao mesmo tempo, porém, Ele nos ajuda a pôr sob exame, a discernir e a agir de acordo com o que foi comprovado.
  1. Uma vez que os carismas são distribuídos a todos os crentes, toda a Comunidade é responsável por verificar a obra do Espírito. O discernimento é um processo essencial e contínuo na vida cristã, tanto em nível pessoal, quanto eclesial. Católicos e Pentecostais submetem suas questões de discernimento à autoridade suprema da Palavra de Deus (a qual, para os Católicos, inclui a Tradição), guiados pelo Espírito Santo e o ensino da Igreja. Neste processo de discernimento, as Comunidades consideram atentamente a regula fidei(a norma da fé) e a orientação pastoral de seus ministros, cientes de que a razão e a experiência também contam para bem discernir.
  1. Católicos e Pentecostais têm em comum os seguintes critérios na prática do discernimento das manifestações carismáticas:
  1. A manifestação de um carisma deve ser condizente com as Escrituras, refletindo uma fé enraizada no pensamento de Cristo (cf. 1Cor 2,16).
  1. Que a manifestação dos carismas seja conforme o ensino da Igreja e o sensus fidelium (o senso de fé dos crentes).
  • Que o carisma possa edificar a Igreja, promovendo unidade e caridade.
  • Que a pessoa que exerce o carisma tenha maturidade moral e espiritual.
  • Que a pessoa que exerce o carisma seja atenta e receptiva à orientação pastoral da Igreja.
  1. Importa considerar o discernimento como sabedoria espiritual e aprendizado prático no dinamismo da vida cristã, sob a guia do Espírito Santo; não deverá ser reduzido a uma mera questão de regras ou métodos de avaliação. Pois enquanto carisma, o discernimento tem uma expediente que transcende o estritamente racional: comporta sensibilidade espiritual, com uma dimensão intuitiva.
  1. Os Católicos destacam que a dimensão eclesial é essencial para o discernimento. Todo o Povo de Deus é chamado a discernir as moções do Espírito. Ademais, nenhum carisma está isento de ser examinado por parte dos Pastores da Igreja. E ao mesmo tempo em que respeitam as estruturas da Igreja, os Católicos acolhem o convite dos Pentecostais a estar mais abertos aos caminhos surpreendentes do Espírito e às suas livres manifestações.
  1. Os Pentecostais destacam a responsabilidade de cada crente individualmente pela expectativa, exercício e discernimento dos carismas. Este discernimento deverá dar-se comunitariamente e nunca no isolamento, devido à corresponsabilidade que compromete a todos no prestar contas de sua conduta. A diversidade das estruturas eclesiais pentecostais, e o alto grau de autonomia entre as igrejas pentecostais independentes, desafiam sua própria habilidade de assegurar uma prestação de contas corresponsável. Os Pentecostais têm apreciado cada vez mais o valor da comunidade eclesial e do trabalho conjunto da liderança: neste aspecto eles admitem um consenso com os Católicos e acolhem o bom exemplo destes.

Com seus distintos enfoques, Católicos e Pentecostais acolhem a oportunidade de aprender uns dos outros e de integrar em suas respectivas abordagens o que têm aprendido, nas duas tradições.

  1. Católicos e Pentecostais concordam que é preciso incrementar a formação e educação teológicas em todos os níveis eclesiais, tanto para os fiéis em geral quanto para seus líderes. Isto deveria incluir o estudo da teologia dos carismas e dos modos adequados de seu exercício na Igreja. Formar e educar nesta direção, servirá seguramente ao crescimento saudável e ao amadurecimento das comunidades cristãs.
  1. A compreensão, exercício e supervisão dos carismas requer uma relação pessoal profunda com Deus. Os carismas florescem especialmente nos contextos que favorecem o crescimento espiritual contínuo dos sujeitos e da comunidade como um todo.
  1. O exercício de todo carisma – mas especialmente de carismas que atraem mais atenção sobre a pessoa – é potencialmente aberto a manipulações e abusos. O cultivo da vida espiritual habilita os cristãos para estar mais preparados a receber e exercer os carismas com integridade. Pois o mistério de Deus é inexaurível e Ele continua nos chamando à acolhida reverente de sua graça e à abertura a seus divinos dons: “Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Quão insondáveis são os Seus julgamentos e impenetráveis os Seus caminhos!” (Rm 11,33).
  1. A supervisão pastoral dos carismas pode beneficiar-se de alguns princípios fundamentais das Ciências Humanas, particularmente úteis em matéria de exercício e discernimento dos carismas, aplicáveis também ao contexto geral da liderança pastoral.
  1. Na cultura pós-moderna, com sua ênfase no individualismo, materialismo e secularismo, Católicos e Pentecostais têm sua fé desafiada; importa reiterar o chamado a que os fiéis se sustentem em Deus e nos carismas do Espírito Santo. Mas é no seio desta mesma cultura que eles também testemunham muitas pessoas, especialmente jovens, que se voltam ao sagrado: isto tem ajudado as pessoas a superar os limites do secularismo, à medida que as permite descobrir um sentido mais profundo e um propósito para suas vidas. Diante disto, os participantes deste Diálogo abraçam o atual momento histórico como uma oportunidade: a oportunidade de encontrar novos e criativos meios de inspirar muitos outros a acolher e a confiar nos carismas do Espírito Santo.
  1. Neste Diálogo, os participantes têm partilhado uma comum apreciação dos carismas, e aceitam o desafio ecumênico que esta representa. Tendo aprofundado a consciência da obra do Espírito em suas respectivas comunidades e estando abertos a uma maior unidade, eles concordam em buscar os meios para apresentar a vida no Espírito em toda a sua beleza e riqueza de carismas, aos seus irmãos e irmãs na fé espalhados pelo mundo. Os carismas visam ao único Corpo de Cristo, sendo verdadeiros instrumentos de unidade: tudo o que aprendemos dos carismas deverá favorecer uma maior unidade dos cristãos. Pois, como admoesta São Paulo, em todas as expressões carismáticas o caminho mais excelente é o amor (1Cor 12,31).
  1. SÍNTESE E CONCLUSÕES
  1. Juntos, Católicos e Pentecostais reconhecem que os carismas concedidos pelo Espírito Santo ao Povo de Deus visam ser recebidos por todos os cristãos: não se limitam apenas aos que participam de movimentos de “avivamento” ou “renovação”. Orar para receber os carismas, esperar por sua manifestação e zelar pelo seu exercício responsável resulta na edificação da Igreja e na eficácia do seu ministério no mundo. Em decorrência disto, Católicos e Pentecostais sentem-se convidados a redescobrir o papel dos carismas e a reacender o uso desses dons em suas respectivas comunidades. Os participantes deste Diálogo encorajam os demais cristãos a fazer o mesmo.
  1. O exercício dos carismas – acompanhado pela santidade de vida – glorifica a Deus e revigora a propagação do Evangelho até os confins da terra (cf. At 1,8). Neste sentido, Papa Francisco qualificou o renovamento carismático como “uma corrente de graça, um sopro renovador do Espírito para todos os membros da Igreja”; e acrescentou: “vós carismáticos tendes uma graça especial para orar e trabalhar pela unidade dos cristãos, porque a corrente de graça atravessa todas as Igrejas cristãs” (Discurso aos membros da Renovação no Espírito Santo, 3 de Julho de 2015)[13].
  1. Aqueles que exercem os diversos carismas devem evitar a tentação de usá-los como mero instrumento de vantagens pessoais. Católicos e Pentecostais também refutam qualquer expressão carismática que pretenda colocar uma palavra profética acima da Palavra de Deus. Nesses e outros casos, o discernimento bem conduzido ajuda a evitar problemas pastorais e favorece uma melhor apreciação da importância espiritual dos carismas. Orientação semelhante nos dá Jack Hayford – um experiente líder do Movimento Pentecostal mundial – ao observar que:

A nossa recepção dos dons espirituais jamais deverá violar a Palavra de Deus. Por isso pedimos ao Santo Espírito para fazer-se presente aqui, conosco, distribuindo os dons entre nós conforme à Sua vontade. Todos os dons são dados à Igreja; e todo crente é solicitado a ministrar os dons com liberdade, responsabilidade e sensibilidade. Desejamos muito que os carismas se manifestem; mas não somos tolos diante de qualquer demonstração. A conduta bíblica é: ministrar segundo a graça, com obediência de espírito e ordem no proceder dos dons. (HAYFORD, 1991, p. 208)[14]

  1. Em todo o tempo vivido juntos neste Diálogo, os participantes experimentaram a presença do Espírito Santo em suas orações, discussões e encontro fraterno. Buscaram sempre perceber, juntos, as inspirações proféticas do Espírito que se manifestavam em cada um dentre eles. Juntos, também ouviram os sussurros e os ditos inefáveis que o Espírito lhes comunicava (cf. 1Rs 19,20; Rm 8,26); de fato, sentiram Seu alento a soprar entre eles. De tal modo, que o próprio Diálogo constituiu uma forma de experiência “carismática”, repleta dos dons do Espírito Santo.
  1. O que ficou claro, a partir deste estudo conjunto, é a existência de uma significativa unidade nos modos como Pentecostais e Católicos compreendem os dons do Espírito e procuram garantir seu correto exercício. Considerando o fato de que o Espírito Santo dá os carismas para o uno Corpo de Cristo (cf. 1Cor 12,27; Rm 12,4-8; Ef 4,4-16), não será uma surpresa que esta unidade acerca dos carismas exista. Por outro lado, entre Católicos e Pentecostais há também diferentes ênfases no entendimento, exercício, discernimento e supervisão desses dons.
  1. Desses cinco anos de reflexão conjunta (2011-2015), conclui-se claramente que a unidade do Corpo de Cristo é uma obra do Espírito Santo (cf. 1Cor 12,13); e os carismas – dons que Ele livremente dá – constituem instrumentos de Deus para realizar aquela unidade desejada pelo próprio Cristo (cf. Jo 17,21).
  1. Enquanto seguem adiante, Católicos e Pentecostais são convidados a exercer seus próprios carismas com a renovada consciência de quanto os mesmos carismas concorrem à edificação da Igreja e promovem a unidade dos cristãos. Católicos e Pentecostais são também convictos do que declarou Novaciano – um cristão do séc. III – ao refletir sobre a verdadeira fé da Igreja:

É o Espírito Santo quem deu firmeza aos corações e às mentes dos discípulos, quem os iniciou nos mistérios evangélicos, quem os iluminou nas coisas divinas; por Ele revigorados, não temeram as prisões nem as correntes pelo nome do Senhor; antes, subjugaram os próprios poderes e tormentos do mundo, armados e fortalecidos por obra do mesmo Consolador, tendo sido ornados com os dons que este mesmo Espírito difunde e envia, qual joias, à Igreja, Esposa de Cristo. É Ele de fato que, na Igreja, suscita os profetas, instrui os mestres, guia as línguas, realiza prodígios e curas, produz obras admiráveis, concede o discernimento dos espíritos, atribui os encargos de governo, sugere os conselhos, reparte e harmoniza os demais dons carismáticos, fazendo que – por toda a parte e em tudo – seja plenamente perfeita a Igreja do Senhor. (NOVACIANO, De Trinitate, 29.9-10 [CCL 4, 70]; apud João Paul II: Encíclica “Veritatis splendor” n. 108)[15]

  1. De que modo o resultado deste Diálogo possa ser partilhado e difundido, se mostrará na medida em que os leitores decidam aplicá-lo em suas próprias situações e contextos. Os participantes desta Sexta Fase do Diálogo Internacional Católico-Pentecostal convidam os leitores e leitoras a utilizar este Relatório de diversas e criativas maneiras:
  1. Como texto comum nas posteriores discussões conjuntas entre Católicos e Pentecostais, bem como entre os Católicos nos diferentes níveis da Igreja local ou nacional.
  1. Como texto referencial nos estudos ecumênicos, sendo o primeiro documento bilateral em que os carismas são examinados em maior profundidade.
  1. Os professores podem incluir este documento nos cursos que estudam o conjunto dos diálogos bilaterais participados pela Igreja Católica; e nos cursos referentes ao Pentecostalismo, à Renovação Carismática Católica e à Espiritualidade.
  1. Estudantes em preparação para o ministério eclesial podem beneficiar-se da leitura atenta deste documento, que lhes aponta novas possibilidades ecumênicas para desenvolver a compreensão, o apreço e a cooperação entre Católicos e Pentecostais, hoje e no futuro.
  1. Os pastores, o clero e demais pessoas engajadas no serviço pastoral, encontrarão neste documento vários subsídios e exemplos – úteis à pregação e à assessoria prática – para proverem o ensino e a orientação nos contextos em que os carismas de fazem presentes.
  1. Os professores de Bíblia e de escolas dominicais, nas paróquias e congregações locais, encontrarão neste documento uma apresentação útil de como suas próprias Igrejas se posicionam a respeito dos carismas, e também como se posicionam seus interlocutores católicos ou pentecostais; a leitura será ainda mais útil se considerar, lado a lado, os tópicos do documento e as passagens bíblicas que tratam diretamente dos carismas (cf. por ex. 1Cor 12-14; Rm 12,3-8; Ef 4,7-16; 1Pd 4,10-11).
  1. Os participantes deste Diálogo descobriram que partilham muitos elementos comuns a respeito dos carismas, reconhecendo ao mesmo tempo que muito mais poderá ser alcançado se Católicos e Pentecostais estiverem dispostos a colher reciprocamente o que Espírito Santo está semeando em suas respectivas comunidades. Como observou Papa Francisco:

Se realmente acreditamos na ação livre e generosa do Espírito, quantas coisas podemos aprender uns dos outros! Não se trata apenas de receber informações sobre os outros para os conhecermos melhor, mas de recolher o que o Espírito semeou neles como um dom também para nós. (Encíclica “Evangelii gaudium” [Alegria do Evangelho] sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual n. 246)[16]

  1. Os participantes deste Diálogo confiam este Relatório aos demais, na esperança que suas conclusões desafiem os leitores e leitoras à fé mais profunda no Evangelho, numa abertura sem fronteiras ao Espírito Santo de Deus, para que cresça o sincero apreço por todos os discípulos do Senhor Jesus Cristo. Os participantes desta sexta fase do Diálogo Internacional Católico-Pentecostal estão convictos de que resultados deste porte, podem servir efetivamente para levar Católicos e Pentecostais a estarem mais próximos uns dos outros. À medida que crescem juntos rumo a Cristo, fazendo-se mais próximos d’Ele, sustentados pelo Espírito Santo que os guia constantemente, os católicos e pentecostais deste Diálogo esperam e oram para que muitos outros se juntem a eles na disposição de responder ao apelo de unidade que o Senhor lhes faz (cf. Ef 4,3). A participação nesta jornada, caminhando sempre avante, constitui uma dádiva substancial à promoção da unidade dos Cristãos.

APÊNDICES

 

APÊNDICE 1 – PARTICIPANTES

Indicadores de função:

C – membro do Comitê Diretivo e Co-presidente

S – Co-Secretário

P – apresentou texto de estudo (Paper)

O – Observador de Igreja ou Instituição convidada

  1. Participantes católicos

Rvmº Dom Michael F. BURBIDGE, então Bispo de Raleigh, Carolina do Norte, EUA, Co-presidente (2011-2015). Em 2016 foi nomeado bispo de Arlington, EUA: C

Rev. Pe. Ján ĎAČOK, SJ, Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma); sacerdote jesuíta, natural da República Tcheca (2012): P

+ Dr. Ralph DEL COLLE, Universidade Marquette, Milwaukee, WI, EUA (2011); teólogo leigo, natural dos EUA. Faleceu em 2012.

Drª Mary HEALY, Seminário Sagrado Coração de Detroit, EUA; International Catholic Charismatic Renewal Services ICCRS (Roma); teóloga leiga, natural dos EUA (2013-2015): P

+ Rev. Pe. Peter HOCKEN, sacerdote diocesano natural da Inglaterra, residente em Viena, Áustria (2014): P. Ausente à seção, enviou Paper por escrito. Faleceu em 2017.

Rev. Pe. Lawrence IWUAMADI, Instituto Ecumênico de Bossey (Suíça); sacerdote diocesano, natural da Nigéria (2013-2015).

Drª Irmã Maria KO, FMA, Seminário Espírito Santo (Hong-Kong) e Faculdade Auxilium (Roma); irmã salesiana, natural da República Popular da China (2011-2015).

Rev. Pe. Marcial MAÇANEIRO, SCJ, Pontifícia Universidade Católica do Paraná (Curitiba); sacerdote dehoniano, natural do Brasil (2011-2015). Foi também delegado “ad hoc” do Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos na World Pentecostal Conference (2016).

Drª Teresa Francesca ROSSI, Centro Pro Unione (Roma); Pontifícia Universidade São Tomás de Aquino / Angelicum (Roma); teóloga leiga, natural da Itália (2011-2015): P

Mons. Pe. Juan USMA GÓMEZ, Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos (Vaticano); sacerdote diocesano, natural da Colômbia; Co-Secretário (2011-2015): S

  1. Participantes pentecostais

Rev. Cecil M. ROBECK Jr., Assembleias de Deus (EUA); Fuller Theological Seminary, Pasadena (EUA), Co-presidente (2011 e 2013-2015); pastor, natural dos EUA (2011-2015): C, P

Rev. David COLE, Igreja Bíblia Aberta (EUA); União de Igrejas Pentecostais/Carismáticas da América do Norte (EUA e Canadá); pastor, natural dos EUA; Co-presidente interino (2012) e Co-secretário (2011-2015): C, S

Rev. Jelle CREEMERS, pesquisador da Faculdade de Teologia Evangélica (Evangelische Theologische Faculteit) de Lovaina, Bélgica; pastor, natural da Bélgica (2013): O

Rev. Nino GONZÁLEZ, Assembleias de Deus (EUA), pastor, hispânico natural dos EUA (2011).

Rev. Veli-Matti KÄRKKÄINEN, Igreja Pentecostal da Finlândia (Helsinki); Faculdade Teológica da Universidade Nacional de Helsinki; teólogo, natural da Finlândia (2012): P

Rev. David MOORE, Igreja Internacional do Evangelho Quadrangular (EUA); pastor, natural dos EUA (2011-2015).

Srª Karen JORGERSON-MURPHY, Assembleias de Deus (EUA); teóloga e docente, natural dos EUA (2011): O

Rev. Opoku ONYINAH, Igreja do Pentecostes (Accra, Gana); chanceler da Universidade do Pentecostes (Accra, Gana); pastor, natural da República de Gana (2011-2014): P

Dr. Daniel RAMÍREZ, Igreja Metodista Unida (EUA); pastor, hispânico natural dos EUA (2011): O

Rev. Joseph SUICO, Assembleias de Deus (Filipinas); pastor, natural das Filipinas (2011).

Rev. Paul VAN DER LAAN. Comunidade Pentecostal (Verenigde Pinkster

Evangeliegemeenten) na Holanda; pastor, natural da Holanda (2011).

Rev. Keith WARRINGTON, Igreja Pentecostal Elim e Regents Theological College (Inglaterra); teólogo, natural da Grã-Bretanha (2011): P

APÊNDICE 2 – ESTUDOS APRESENTADOS (PAPERS)

2011 – Roma, Itália

Rev. Keith WARRINGTON:

Os carismas na Igreja – significado spiritual, discernimento e implicações pastorais

(The Charisms in the Church: Their Spiritual Significance, Discernment and Pastoral Implications)

Drª Teresa Francesca ROSSI:

Os carismas na Igreja – fundamentos comuns: uma perspectiva católica

(Charisms in the Church: Our Common Ground – A Catholic Perspective)

2012 – Helsinki, Finlândia

Rev. Veli-Matti KÄRKKÄINEN:

Para um teologia e prática pentecostais do discernimento

(Pentecostal Practice and Theology of Discernment: An Interim Report)

Rev. Pe. Ján ĎAČOK, SJ:

Discernimento: uma perspectiva católica

(Discernment: A Catholic Perspective)

2013 – Baltimore, USA

Rev. Opoku ONYINAH:

Cura: uma perspectiva pentecostal

(Healing: A Pentecostal Perspective)

Drª Mary HEALY:

Cura: uma perspectiva católica

(A Catholic Perspective on Healing)

2014 Sierra Madre, USA

Rev. Cecil M. ROBECK, Jr.:

Dons proféticos: uma perspectiva pentecostal

(A Pentecostal Perspective on Prophetic Gifts)

Mons. Pe. Peter HOCKEN:

Profecia

(Prophecy)

APÊNDICE 3 – IGREJAS PARTICIPANTES

– Igreja Apostólica do México (México)

– Igreja Assembleia de Deus (Estados Unidos)

– Igreja Internacional do Evangelho Quadrangular (América do Norte)

– Igreja Pentecostal de Santidade (Estados Unidos)

– Igreja Pentecostal da Polônia (Polônia)

– Igrejas de Deus (América do Norte)

– Assembleias Pentecostais do Canadá (Canadá)

– Assembleias de Deus Independentes (Estados Unidos)

– União de Igrejas Pentecostais/Carismáticas (Estados Unidos)

– Movimento Pentecostal da Suécia (Suécia)

– Movimento Visão de Futuro (Argentina)

– Igreja Bíblia Aberta (Estados Unidos)

– Igreja Missão Pentecostal (Chile)

– Igreja do Deus da Profecia (Estados Unidos e Alemanha)

– Igreja Pentecostal de Cristo (Iugoslávia)

– Igreja Evangélica Internacional (Itália)

– Missão de Fé Apostólica (África do Sul)

– União de Igrejas Evangélicas Pentecostais (Holanda)

– Igreja Reformada (Holanda)

– Igreja Pentecostal Elim (Reino Unido)

– Igreja do Pentecostes (África, Europa e Américas)

– Conselho de Igrejas Pentecostais de Gana (Gana)

– Igreja Católica / Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos

APÊNDICE 4 – RELATÓRIOS ANTERIORES

FINAL REPORT 1972-1976, in: Pontifical Council for Promoting Christian Unity, Information Service 32 (1976/III) 32-37. Também in: One in Christ 12:4 (1976) p. 309-318.

FINAL REPORT 1977-1982, in: Information Service 55 (1984/ II-III) 72-80 and in: Pneuma 12:2 (1990) p. 97-115.

PERPSECTIVES ON KOINONIA, in: Information Service 75 (1990 / IV), p. 179-191. Também in: Pneuma 12/2 (1990) p. 117-142

EVANGELIZATION, PROSELYTISM AND COMMON WITNESS, in: Information Service 97 (1998/I-II) p. 38-56; também in: Pneuma 21:1 (1999) p. 11-51.

OBS. Os quatro primeiros Relatóris estão reunidos in: GROS, Jeffrey; MEYER, Harding; RUSH, William G. (Eds). Growth in agreement II: Reports and Agreed Statements on a world level, 1982-1998. Geneva, Switzerland: WCC Publications / Grand Rapids, MI: William B. Eerdmans Publishing Company, 2000, p. 713-779.

ON BECOMING A CHRISTIAN: INSIGHTS FROM SCRIPTURE AND THE PATRISTIC WRITINGS WITH SOME CONTEMPORARY REFLECTIONS, The Report from the Fifth Phase of the International Dialogue between Some Classical Pentecostal Churches and Leaders and the Catholic Church (1998-2006), in: Information Service 129 (2008/III), p. 162-215.

OBS. Os cinco primeiros Relatórios foram publicados in: VONDEY, Wolfgang (Ed.). Pentecostalism and Christian unity. Eugene, OR: Pickwick Publications, 2010, p. 101-198 (primeira edição); 2013, p. 95-216 (segunda edição).

APÊNDICE 5 – EDIÇÕES ITALIANAS E BRASILEIRAS DOS RELATÓRIOS

COMISSÃO INTERNACIONAL DE DIÁLOGO CATÓLICO-PENTECOSTAL. Tornar-se cristão: inspiração da Escritura e dos textos da Patrística com algumas reflexões contemporâneas. Brasília: Edições CNBB, 2010.

DIALOGO CATTOLICO-PENTECOSTALE. Rapporto Finale 1972-1976. In: Enchiridion Oecumenicum vol. 1. Bologna: EDB, p. 1076-1077.

DIALOGO CATTOLICO-PENTECOSTALE. Rapporto Finale 1977-1982. In: Enchiridion Oecumenicum vol. 3. Bologna: EDB, 1995, p. 901-924.

DIALOGO CATTOLICO-PENTECOSTALE. Rapporto Finale: Prospettive sulla koinonia 1985-1989. In: Enchiridion Oecumenicum vol 3. Bologna: EDB, p. 925-957.

PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A UNIDADE DOS CRISTÃOS. Diálogo católico-pentecostal. São Paulo: Paulinas, 1999.

Webpages úteis:

http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/chrstuni/sub-index/index_pentecostals_it.htm

http://pctii.org/cyberj/cyberj4/rcpent97.html

http://pctii.org/cyberj/cyberj18/2007RC_Pent_Dialogue.pdf 63

Discurso de Papa Francisco à RCC, 3 de Julho de 2015:

https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2015/july/documents/papa-francesco_20150703_movimento-rinnovamento-spirito.html

Texto inglês do presente Relatório:

“Do not quench the Spirit” – Charisms in the life and mission of the Church:

http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/chrstuni/information_service/pdf/information_service_147_en.pdf

Tradução do inglês para o português de

Dr. Pe. Marcial Maçaneiro SCJ

Membro da Comissão Internacional de Diálogo Católico-Pentecostal (Vaticano).

Docente de Pós-Graduação em Teologia da PUC PR (Curitiba).

Membro da Rede Latino-Americana de Estudos Pentecostais RELEP.

[1] COMITÊ DIRETIVO. Relatório de 26 de Outubro de 1971, Roma; apud SANDIDGE, J. Roman Catholic-Pentecostal Dialogue (1977-1982): A Study of Developing Ecumenism vol. 1. Leuven: 1985, p. 52.

[2] Este Relatório usa o termo “carismas” (charismata, em grego) e “dons espirituais” (pneumatikoi, em grego) como sinônimos – no sentido de Dons do Espírito Santo – ainda que alguns estudiosos prefiram distinguir a ambos, com base no uso de Paulo em 1Cor 12–14. Entre muitos Pentecostais e Católicos, em diferentes países, a expressão “dons espirituais” é mais familiar do que o termo “carismas”. No texto inglês deste Relatório as citações bíblicas são tiradas da New Revised Standard Version of the Bible (1989); na sua tradução para o português, optou-se pela Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB, 1995) em cotejo com a Bíblia de Jerusalém – nova edição revista e ampliada para o Brasil (BJ, 2002).

[3] Isaías 11,1-2 descreve o Messias como alguém dotado do Espírito de sabedoria, inteligência, conselho, fortaleza, ciência e temor do Senhor (a Septuaginta inclui “piedade”). A tradição católica tem visto aqui os sete dons santificantes do Espírito Santo, concedidos a todos os cristãos no Batismo e na Confirmação (cf. TOMÁS DE AQUINO, Summa Theologica I-II, q. 68; LEÃO XIII, Divinum Illud Munus 9; também Catecismo da Igreja Católica n. 1831). Esses dons santificantes são, pois, distintos dos dons carismáticos que o mesmo Espírito concede, em medidas diferentes, a pessoas diferentes. Sobre a profecia de Joel 2,28 (derramamento do Espírito de Deus), há versões que a localizam em Joel 3,1 por dividirem os versículos diversamente.

[4] Conforme edição em português no Brasil: Apostolicam actuositatem n. 3. In: Compêndio do Vaticano II. 22ª ed. Petrópolis: Vozes, 1991, p. 532 [número marginal 1339].

[5] Jesus cumpre as profecias messiânicas a Ele referidas na Primeira Aliança; e tendo consumado sua missão, Ele envia o Espírito Santo da parte do Pai, por cuja Unção a Igreja é constituída comunidade profética, no contexto da Nova Aliança. O batismo, validamente ministrado, comunica o múnus ou função profética ao crente, juntamente com as funções real e sacerdotal (Nota do Tradutor).

[6] Conforme edição em português no Brasil: CALVINO, João. Romanos. São José dos Campos: Editora Fiel, 2014, p. 496.

[7] Conforme edição em português no Brasil: LUTERO, Martinho. Carta aos cristãos de Estrasburgo contra o espírito entusiástico. In: Pelo Evangelho de Cristo. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 1984, p. 163- 169 [texto integral da Carta].

[8] Tradução da frase “Semen est sanguis christianorum” de Tertuliano, em referência aos mártires, de cujo sangue brotavam novos cristãos (cf. Apologeticum 50,13 em latim). O Papa Francisco parafraseou, referindo-se aos mártires cristãos no Oriente Médio: “O sangue dos mártires é semente da unidade dos cristãos” (FRANCISCO. Discurso por ocasião do encontro com Sua Santidade Mar Gewargis III, patriarca da Igreja Assíria do Oriente). Disponível em: <https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2016/november/documents/papa-francesco_20161117_patriarca-chiesa-assira.html> (Nota do Tradutor).

[9] Conforme edição em português no Brasil: IRENEU DE LIÃO. Contra as heresias. 3ª ed. São Paulo: Paulus, 2009, p. 235.

[10] Já na 1ª Fase deste Diálogo Internacional Católico-Pentecostal (1972-1989), as duas tradições citaram e confirmaram a recomendação bíblica de discernimento dos espíritos (cf. Final Report I, n. 38).

[11] Conforme edição em português no Brasil: Presbyterorum ordinis n. 9. In: Compêndio do Vaticano II. 22ª ed. Petrópolis: Vozes, 1991, p. 458 [número marginal 1170].

[12] Em 2017, a Renovação Carismática Católica (conhecida em italiano como Rinnovamento nello Spirito) celebrou seus 50 anos de caminhada; em várias ocasiões do mesmo ano, este Jubileu de Ouro foi celebrado com a participação de líderes evangélicos e pentecostais, como na Vigília de Pentecostes, em 3 de junho de 2017, Roma.  (Nota do Tradutor).

[13] FRANCISCO. Discurso aos membros da Renovação no Espírito Santo em 03 de Julho de 2015. Disponível em: <https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2015/july/documents/papa-francesco_20150703_movimento-rinnovamento-spirito.html&gt;.

[14] HAYFORD, Jack. Glory on Your House. Tarrytown, NY: Chosen Books, 1991, p. 208 (tradução nossa).

[15] Conforme edição em português online: JOÃO PAULO II. Carta encíclica Veritatis Splendor(1993) n. 108. Disponível em: <http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_06081993_veritatis-splendor.html&gt;.

[16] Conforme edição em português no Brasil: FRANCISCO. Carta encíclica Evangelii Gaudium. São Paulo: Paulinas, 2013, p. 193.

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