A articulação de diversas expressões carismáticas não está “começando agora”. Houve diversas fases do desenvolvimento das expressões carismáticas no Brasil, bem como do mútuo relacionamento. Cabe relembrar a todos os irmãos e irmãs que, do final da década de sessenta até o final dos anos setenta, a Renovação Carismática Católica foi guiada, primeiramente, pela influência de “pregadores itinerantes”; é após o retorno de Pe. Eduardo Dougherty, sj ao Brasil que se organiza um Escritório Nacional e a primeira Equipe Nacional de Serviços. Durante este período, todas as realidades carismáticas existentes no país estavam vinculadas a este Escritório.

Na década de 80 se organizou o Conselho Nacional e todas as realidades carismáticas existentes se viam contempladas nele.

Na década de 90 se deu a Ofensiva Nacional: diversos membros de Comunidades de Vida e Aliança estiveram profundamente engajados nela. Tal era o entendimento a respeito da relação entre a RCC BR e a experiência comunitária que se contemplava, na Ofensiva, a realidade das “Comunidades de Renovação”. Com o passar do tempo, a “RCC BR” foi assumindo a forma de um Movimento Eclesial, tal como orientara São João Paulo II: o Papa, por diversas vezes, ao se dirigir ao Rinnovamento nello Spirito Santo da Itália, definiu-o como “um Movimento Eclesial”. Sob a escuta do Magistério, os líderes da RCC BR passaram a refletir a respeito da realidade da Renovação no Brasil como um Movimento Eclesial que, embora com singularidades, devia, de fato, institucionalizar-se (como, posteriormente, ensinara o Papa Bento XVI a respeito da necessária institucionalização dos carismas para sua duração no seio da Igreja).

A partir de 1998, com a celebração de Pentecostes com São João Paulo II junto a todos os Movimentos Eclesiais, na preparação para o grande jubileu do ano 2000, consolidou-se a visão de que a Renovação Carismática Católica do Brasil precisava se entender e organizar como um Movimento Eclesial, com sua formação própria, sua organização interna e sua ação missionária e evangelizadora (não somente enquanto graça que permeia as iniciativas existentes na Igreja, mas enquanto “realidade eclesial” na qual milhares de pessoas fazem o seu engajamento pastoral, a sua pertença dentro da Igreja).

Paralelamente, as Comunidades de Vida e Aliança Carismáticas cresciam em maturidade eclesial e desenvolviam toda a vida formativa e missionária de seus membros e evangelizados sob “o prisma do carisma fundante”; entendiam-se como “nascidas da corrente de graça carismática”, mas não como parte de um “Movimento Eclesial” que se constituía no Brasil. Embora tenham havido inegáveis hostilidades em muitas realidades locais (entre RCC e Comunidades), replicava-se, no Brasil, o relacionamento preconizado pelas relações institucionais entre ICCRS e Catholic Fraternity (na relação entre RCC BR e Frater Brasil: seus responsáveis se visitavam, havia cordialidade).

A RCC BR e as Comunidades firmaram seu próprio caminho eclesial por uma escolha pastoral feita sob total influência de São João Paulo II; fora em seu pontificado que nascera a Catholic Fraternity e se consolidara o ICCRS. As primeiras comunidades carismáticas a receberam o reconhecimento pontifício… tiveram-no no pontificado dele; o mesmo aconteceu com o ICCRS.

É no pontificado do Papa Francisco, porém, que ocorre uma “releitura” do desenvolvimento das expressões carismáticas e da relação existente entre elas (em virtude de diversos problemas percebidos e explicitados pelo Santo Padre e, sobretudo, pelo desejo de Sua Santidade em ver o Batismo no Espírito Santo sendo compartilhado com toda a Igreja). Como fruto deste anseio do Santo Padre, nasceu, sob seu pedido, um “serviço único”, de Direito Pontifício, para todas as expressões carismáticas na Igreja Católica e suprimiram-se o ICCRS e a Catholic Fraternity.

É neste contexto de busca de unidade entre as expressões carismáticas e de missionariedade para levar o Batismo no Espírito Santo à toda a Igreja – “Igreja em Saída” capaz de tocar, no pobre e no enfermo, à carne do próprio Jesus – que nasceu, também, a nossa pequena iniciativa: o CERNE.

Por que agora? Porque, como demonstrado acima, houve um desenvolvimento da compreensão sobre nós mesmos (expressões carismáticas) e do nosso modo de nos relacionarmos mutuamente que culminou neste tempo específico, extremamente desafiador e fecundo para o nascimento de iniciativas tais como a nossa.

Quando se levanta o questionamento sobre o envolvimento passado dos iniciadores do CERNE nas estruturas do Movimento como uma incoerência em relação aquilo que estão propondo agora, há uma série de problemas nesta afirmação a serem considerados:

1º Há uma certa “falta de caridade e de respeito” para com a pessoa e a história destes irmãos cuja vida e frutos falam por si sós. Insinua-se que há um desejo, em seus membros, de “buscar uma cadeira no CHARIS”, de “perpetuação no poder”. Infelizmente, esta é uma acusação muito comum com a qual muitos líderes carismáticos que fundaram Comunidades de Vida e Aliança – por exemplo – já tiveram que enfrentar quando, ao se dedicarem à fundação e desenvolvimento de suas comunidades, “desligaram-se” das estruturas da RCC. Muitas vezes foram considerados como “gente insubordinada que, por não desejarem obedecer, criaram uma estrutura para si, a fim de se perpetuarem no poder”.

Da parte do CERNE, porém, recordamos a todos que o direito de livre associação é garantido aos leigos pelo Decreto Apostolicam Actuositatem e pelo Direito Canônico, de modo que o CERNE louva a Deus por todo este mover de unidade e missão que deu origem ao CHARIS, mas sua existência é totalmente independente da existência ou não do CHARIS. O mover de Unidade e Missão, do qual o Papa Francisco tem sido uma das principais vozes, não se reduz a criação do “serviço único”; antes, o “serviço único” se apresenta como um dos frutos deste mover do Espírito, nascido para servir a algo que lhe sobrepassa totalmente e, como ensinara Jesus, “sopra onde quer, ouve-se-lhe o ruído, mas não se sabe de onde vem nem para onde vai”. Esta moção de unidade e missão reaproximou realidades carismáticas nos Estados Unidos a partir de 2017 (nem se quer havia um “CHARIS”… falava-se de um “serviço único”); fortaleceu redes de relacionamentos, deu origem a novas realidades emergentes (O Centro The Ark and The Dove, em Pittsburgh, por exemplo) e se apresenta como uma “nova onda do Espírito” dentro desta corrente de graça. O CERNE bebe desta moção de unidade e missão (que não é o CHARIS… o CHARIS é um serviço nascido dessa moção para o serviço a esta moção). Estaremos felizes e disponíveis para qualquer tipo de colaboração que este “serviço único de direito pontifício” desejar.

Existindo ou não um “CHARIS”, a liberdade para conceber e gerir um “Centro de Estudos” sobre o Batismo no Espírito Santo, a Vida no Espírito e a Cultura de Pentecostes é lícita, é válida e garantida a nós pela Igreja. Não obstante isto, porém, se tivéssemos que levar em consideração o CHARIS para a criação do CERNE (o que não é assim), cabe-nos lembrar que o CHARIS, em seu Estatuto, fomenta a criação de redes de relacionamentos para fins formativos e evangelizadores. O CERNE não é “o” CHARIS ou “do” CHARIS. É um centro de estudos de identidade carismática que nasce neste tempo fecundo e permanecerá sempre aberto ao diálogo e à comunhão com este serviço único.

2º Quais são as pessoas que deveriam refletir e responder aos anseios do Santo Padre? Não seriam, de fato, os próprios carismáticos que vem entregando suas vidas na Igreja dentro dos diversos serviços existentes (para quem, de fato, o Santo Padre está falando)? Por que o fato destes irmãos terem trabalhado na criação e estabelecimento das estruturas da RCC BR tal como ela é – sob a visão de estabelecer uma realidade eclesial organizada “como” um Movimento Eclesial, como desejara São João Paulo II – agora faria deles “pessoas inaptas” para uma iniciativa como esta do CERNE? O trabalho que foi desenvolvido no Brasil tinha uma fundamentação eclesiológica e pastoral profundamente magisterial. O Papa Francisco, como amante conhecedor da Renovação, fez uma releitura da história da Renovação e expressou o desejo de um novo modelo de relacionamento entre as expressões carismáticas. Que assim seja!

De fato, a esmagadora maioria dos irmãos envolvidos no Serviço Internacional de Comunhão, bem como no Serviço Nacional de Comunhão no Brasil, são igualmente construtores de toda a estrutura que exisitia anteriormente e isto não os torna inaptos (muito pelo contrário).

Um cuidado importante que precisamos ter é este: quando as indagações abandonam os argumentos sobre a “legitimidade ou não” da constituição do CERNE para passar a argumentos ad hominem, que apenas visam denegrir os envolvidos e, assim, tentar retirar deles “a autoridade”, sem necessidade de contra-argumentações, elas devem ser olhadas com muita cautela.

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