A Igreja é Carismática por natureza. Os carismas são essenciais tanto para a vida da Igreja, quanto para sua missão evangelizadora. São expressões do amor de Deus por seu Povo e manifestação de sua viva Presença em meio a este. Livre e soberanamente concedidos pelo Espírito Santo, os carismas capacitam os crentes para participar do plano divino da salvação, para o louvor e a glória do Pai. Pentecostais e Católicos reconhecem a presença dos carismas na História das duas tradições e encorajam-se mutuamente: “Procurai o amor; aspirai aos dons do Espírito” (1Cor 14,1). Os carismas são dons do Espírito Santo a todos os que creem (1Cor 12,7-11). Para os Católicos, a base para o recebimento dos dons espirituais são o Batismo e a Confirmação; entretanto, o Espírito frequentemente concede seus dons no percurso posterior aos sacramentos de iniciação, especialmente em vista de um chamado renovado ao serviço e à missão. Para muitos Pentecostais, o batismo no Espírito Santo é a porta de entrada essencial para o recebimento de alguns carismas em particular. Católicos e Pentecostais concordam, entretanto, que os carismas não são confinados aos sacramentos nem ao batismo no Espírito Santo. Ainda que os carismas sejam disponíveis a todos os crentes, tornam-se operantes quando os cristãos se entregam confiantes ao poder do Espírito Santo, proclamando o Evangelho e servindo uns aos outros. Os carismas manifestam a criatividade do Espírito; são dons generosamente dados e muitas vezes ultrapassam toda expectativa. Tanto os carismas mais extraordinários (tais como curas, milagres, profecias e línguas), quanto aqueles considerados mais ordinários (tais como serviço, ensino, exortação, distribuição de donativos, presidência e obras de misericórdia) são vitais para o ser e a missão da Igreja. Com a assistência do Espírito Santo, toda a comunidade de fé – ministros ordenados e fiéis leigos – é chamada a engajar-se num processo de discernimento para verificar se certas palavras e feitos são manifestações genuínas do mesmo Espírito. A Escritura ensina que o critério último para o discernimento dos carismas são a verdade e a caridade (1Jo 4,1-3; 1Cor 13,1-3), sendo que o ponto de chegado do nosso caminhar com Deus, em Cristo, já começou com o Batismo e a conversão. Os carismas são dons do Senhor Jesus, ressuscitado e glorificado nos céus, mediante seu Santo Espírito (Ef 4,8-12). Dons coerentes com a presença salvadora de Cristo no mundo, que não se manifesta apenas por suas obras de poder, mas também na fraqueza, pobreza e sofrimento que fazem parte da condição humana (2Cor 12,9). Mesmo o mais poderoso dos carismas não isenta os cristãos de carregar a cruz e abraçar as exigências do discipulado. Pentecostais e Católicos desafiam profeticamente as culturas e as teologias que negam o valor e o sentido espiritual do sofrimento. Enquanto creem, por exemplo, que o poder de Deus se manifesta nas curas, milagres e no bem que Ele provê para seu Povo, são igualmente críticos de toda ênfase que poderia levar a Igreja a tendências escapistas e triunfalistas. A Igreja se alegra pelo dom que cada uma de suas Comunidades representa a todas as demais tradições cristãs. Os Católicos reconhecem que os Pentecostais têm suscitado uma maior sensibilidade para com o derramamento do Espírito Santo e o exercício de Seus dons na Igreja contemporânea. Os Pentecostais, por sua vez, não compreendem o derramamento do Espírito por eles experimentado como algo confinado às Igrejas Pentecostais, mas consideram os carismas como um dom para a Igreja em sua totalidade. Além disso, são gratos pelo fato de que os Católicos, bem como outros cristãos, têm reconhecido o testemunho pentecostal sobre o valor dos carismas para a vida da Igreja. Juntos, Católicos e Pentecostais admitem o derramamento do Espírito Santo como graça para o inteiro Corpo de Cristo; graça que supera inclusive suas próprias expectativas. FUNDAMENTOS BÍBLICOS A compreensão dos carismas é enraizada na Escritura. O Primeiro Testamento atesta a presença e a ação do Espírito desde os inícios da Criação (Gn 1,2). A seguir – ao longo da história do Povo de Deus – a ação carismática do Espírito pode ser vista no caso de pessoas como José (Gn 41,25.38-39), Moisés (Dt 34,10-11), Bezalel (Êx 31,2-6), os setenta anciãos (Nm 11,17.25-30) e Josué (Nm 27,18). Os Juízes, por sua vez, foram aqueles em Israel a quem o Espírito dotou com graças especiais, fazendo deles líderes e libertadores heroicos do Povo (Jz 3,10; 6,34; 11,29; 14,19; 15,14-15). Saul, Davi e outros reis também receberam dons especiais para o exercício de suas funções, como líderes do Povo de Deus (1Sm 10,6; 16,13). Salomão, por exemplo, recebeu um específico dom de sabedoria (1Rs 3,6-15). Os profetas do Primeiro Testamento receberam o Espírito de Deus para que seu ministério profético fosse cumprido numa perspectiva carismática (2Rs 2,9-14). E Joel, por sua vez, profetizou o derramamento escatológico dos dons do Espírito sobre todo o Povo de Deus (Jl 2,28)[3]. No Novo Testamento, os Evangelhos revelam Jesus como o Ungido (Messias) enviado pelo Pai, sobre Quem desceu o Espírito ao ser batizado no Jordão (Lc 3,21-22). Ao inaugurar sua missão com o discurso na sinagoga de Nazaré, Jesus identificou a si mesmo como alguém ungido pelo Espírito, para anunciar as boa-nova aos pobres e manifestar a vinda do Reino de Deus pela cura dos enfermos e a libertação dos oprimidos (Lc 4,18-21). Jesus responde às perguntas levantadas por João Batista, apontando à sua própria atividade carismática como evidência de que Ele é o Ungido de Deus prometido (Mt 11,4-6). Dotado com tal Unção, Jesus enviou em missão os Doze (Mc 6,7; Mt 10,1; Lc 9,1) e também os Setenta [e dois] discípulos (Lc 10,9), dando-lhes autoridade para pregar, curar e expulsar os demônios (Mc 6,13; Lc 9,6). E na narrativa de conclusão do Evangelho de Marcos, Jesus Ressuscitado promete que manifestações carismáticas e proteção contra o mal serão marcas distintivas de seus seguidores: Estes são os sinais que acompanharão os que tiverem crido: em meu nome expulsarão os demônios; falarão novas línguas; pegarão serpentes com as mãos e, se beberem algum veneno mortal, isto não lhes causará mal algum; imporão as mãos aos doentes e estes serão curados. (Mc 16,17-18) Todos os quatro Evangelhos relatam a profecia que proclama Jesus como Messias Prometido, Aquele que batizará no Espírito Santo (Mt 3,11; Mc 1,8; Lc 3,16; Jo 1,33): promessa cujo cumprimento se dá no dia de Pentecostes, conforme testificam os Atos dos Apóstolos (At 2,33). Os dramáticos feitos narrados em Atos demonstram o prolongamento do ministério de Jesus na Igreja, mediante a proclamação do Evangelho acompanhada de sinais e prodígios. No Livro, os carismas de profecia (At 2,17; 19,6; 21,9), de cura (At 4,30; 5,16; 8,7; 28,8) e de operar milagres (At 4,30; 5,12; 6,8; 8,6; 14,3; 15,12) acompanham regularmente o anúncio do Evangelho, à medida que a Igreja se expande. As Cartas do Novo Testamento, particularmente aquelas de Paulo, usam o termo charisma (derivado de cháris, graça) para indicar os dons específicos do Espírito Santo pelos quais Deus edifica a Igreja (1Cor 12,4). Esses dons – os carismas – tomam formas variadas, refletindo a liberdade do Espírito: Ele abundantemente os concede e soberanamente os distribui. Paulo não fornece uma explanação total dos dons do Espírito, nem informa uma lista exaustiva dos carismas; em vez disso, sua ênfase está na iniciativa do Espírito e na diversidade de seus dons entre os crentes. Paulo diz na 1ª Carta aos Coríntios 12,4-11: Há diversidade dos dons, mas o Espírito é o mesmo; diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo; diversos modos de ação, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos. A cada um é dado o dom de manifestar o Espírito, em vista do bem de todos. […] Tudo isto é o único e mesmo Espírito quem realiza, concedendo a cada um dons pessoais diversos, segundo a Sua vontade. (1Cor 12,4-7.11)   São Paulo encoraja os fiéis a desejar os carismas com viva aspiração (1Cor 12,31); exorta os crentes a “tê-los em abundância, para a edificação da assembleia” (1Cor 14,12), de modo a não os extinguir (1Tes 5,19-22). O apóstolo também ensina que é necessário discernir os carismas (1Cor 12,10); diz que os carismas devem ser exercidos na Igreja ordenadamente, uma vez que “Deus não é Deus de desordem, mas de paz” (1Cor 14,33.40). Na Carta aos Romanos 12,6-8 ele escreve: Temos dons que diferem segundo a graça que foi concedida. É o dom de profecia? Seja exercido de acordo com a fé. Alguém tem o dom de serviço? Que sirva. Outro, o de ensinar? Que ensine. Aquele que faz donativos, faça-o sem segundas intenções. Aquele que preside, que presida com zelo; aquele que exerce a misericórdia, que o faça com alegria. Em acréscimo, em sua 1ª Carta a Timóteo, ele exorta: “Não descuides o dom da graça [charisma] que há em ti, que te foi concedido por uma intervenção profética, acompanhada da imposição de mãos pelo colégio dos anciãos [presbyteroi]” (1Tm 4,14). BREVES OBSERVAÇÕES HISTÓRICAS Católicos e Pentecostais afirmam que em todos os tempos e culturas o Espírito Santo mune os cristãos com carismas, para o testemunho do Evangelho e a edificação do Corpo de Cristo. Eles rejeitam a noção de que os carismas teriam efetivamente cessado após a era apostólica ou em outras fases da História cristã. Contudo, reconhecem que durante muitos séculos os carismas não estiveram à frente nem ao centro da vida eclesial. Supunha-se que o Espírito estivesse presente, mas, por vezes, com pouca expectativa a respeito de sua espontânea ação carismática. Apesar disso, a contribuição dos Padres Capadócios, o movimento monástico em suas variadas expressões, o avivamento espiritual verificado na Idade Média com Franciscanos e Dominicanos, e outras correntes de renovação ao interno da Igreja Católica, cultivaram uma contínua atenção ao Espírito Santo e seus carismas, constituindo sinais evidentes da ação do mesmo Espírito. Entre os motivos indicados pelos estudiosos para o declínio das manifestações carismáticas, estão: o largo ingresso de convertidos – carentes de sólida formação na fé – logo após a legalização do Cristianismo pelo Império Romano; a reação da Igreja aos excessos de movimentos carismáticos tais como o Montanismo e o Maniqueísmo, com seu desprezo pelo corpo; uma pneumatologia ainda incipiente, e os esforços teológicos em combater as várias heresias. Posteriormente, na História, os debates em torno da Reforma, o Racionalismo iluminista e o ceticismo generalizado por tudo o que fosse sobrenatural também contribuíram à escassa expectativa das manifestações extraordinárias do Espírito Santo. Católicos e pentecostais concordam que o avivamento Pentecostal do século XX acarretou uma atenção renovada aos carismas como algo essencial para revigorar a vida e a missão da Igreja. Esta mesma atenção aos carismas alcançou maior intensidade com o surgimento da Renovação no Espírito Santo nas igrejas Anglicana e Protestantes nos anos Cinquenta e Sessenta, e com o emergir da Renovação Carismática Católica em 1967. É também reconhecido o papel particular que o ensino do Concílio Vaticano II teve para a revitalização dos carismas em geral, além de afirmar a importância da dimensão carismática da Igreja (cf. Constituição dogmática “Lumen gentium” [Luz das gentes] sobre a Igreja 12). IGREJA, COMUNIDADE VIVIFICADA PELO ESPÍRITO SANTO Juntos, Pentecostais e Católicos afirmam que, desde Pentecostes, o Espírito Santo tem constituído e animado a Igreja – a nova comunidade escatológica de Deus – levando-a a proclamar e manifestar continuamente o Seu Reino. A partir de Pentecostes, o Espírito capacitou vigorosamente os discípulos para levar adiante a missão do seu Senhor, enquanto Deus corroborava o testemunho do Evangelho com sinais e prodígios feitos em Nome de Jesus e pelo poder do mesmo Espírito (cf. Mc 16,17-18; At 14,3; Hb 2,4). A Igreja é, pois, missionária por sua própria natureza. E o Espírito Santo é o primeiro agente da missão eclesial; é Quem dirige e capacita a Igreja em toda a sua atividade. Deus chancela os crentes com o selo do Espírito Santo (2Cor 1,21-22), o Qual habita em cada um como num templo (1Cor 6,19). Por meio do mesmo Espírito, os crentes são santificados e feitos “pedras vivas na construção da casa habitada pelo Espírito, para constituir uma santa comunidade sacerdotal, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus, por Jesus Cristo” (1Pd 2,5). O Espírito dota os crentes com dons espirituais para a edificação do Corpo de Cristo. O mesmo Espírito é também o princípio da unidade (koinonia) em meio à diversidade de carismas e ministérios (1Cor 12,4-5). Tanto Deus distribui os carismas livre e soberanamente, quanto convida Seus filhos a beber na fonte do Doador dos dons, para confirmar as graças já recebidas e seguir desejando, confiadamente, os Seus dons. Pentecostais sentem-se encorajados pelo ensino da Igreja Católica, de que “da aceitação desses carismas, mesmo os mais simples, brota em favor de cada um dos fieis o direito e o dever de exercê-los para o bem da humanidade e a edificação da Igreja, dentro da mesma Igreja e do mundo, na liberdade do Espírito Santo que ‘sopra onde quer’ (Jo 3,8)” (Decreto “Apostolicam actuositatem” [Ação apostólica] sobre o apostolado dos Leigos 3; também Constituição dogmática “Lumen gentium” [Luz das gentes] sobre a Igreja n. 12)[4]. Católicos e Pentecostais concordam que o Espírito Santo dota a Igreja com dons institucionais e carismáticos (1Cor 12,28). Na dimensão institucional da Igreja, o Espírito Santo está a operar através das estruturas de liderança estabelecidas por Cristo. Na dimensão carismática, o mesmo Espírito opera entre os crentes de todos os níveis, de modo contínuo, livre e muitas vezes imprevisível. Essas duas dimensões são coessenciais à Igreja e complementares entre si. A dimensão institucional tem, por assim dizer, uma face carismática, em tudo quanto nela é animado e continuamente sustentado pelo Espírito Santo; e a dimensão carismática tem, de seu lado, uma face institucional, em tudo quanto nela deve ser discernido pela Igreja e corretamente ordenado para o bem de toda a Igreja. Católicos e Pentecostais reconhecem e apreciam a existência de uma salutar tensão entre as dimensões carismática e institucional, na Igreja. A ambas aplica-se esta admoestação de Paulo: “Em nome da graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós: não tenhais pretensões além do que é razoável; mas uma justa estima de si mesmos, ditada pela sabedoria, de acordo com a medida da fé que Deus concedeu a cada um” (Rm 12,3). Pentecostais e Católicos concordam que o Espírito Santo suscita líderes e os qualifica com dons, para que ensinem e conduzam a Comunidade cristã, ajudando-a a crescer em santidade. A autoridade na Igreja é um dom de Deus e deve ser exercida como verdadeiro serviço, seguindo o exemplo do Senhor Jesus (cf. Mc 10,42-45). Pois Cristo mesmo é o supremo pastor da Igreja (cf. 1Pd 5,4). Católicos entendem a liderança na Igreja, primeiramente, conforme o tríplice ministério de Bispos, Presbíteros e Diáconos. Os Pentecostais esclarecem que, nas Comunidades pentecostais clássicas, há uma estrutura de liderança semelhante, com ministérios instituídos; contudo, o exercício da supervisão eclesial pode ter expressões mais amplas. Ambos reconhecem que a autoridade, na Igreja, deve ser exercida conforme a guia do Espírito Santo, para evitar os riscos de usá-la inapropriadamente.

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