Toda a missão de Cristo se resume nisto: batizar-nos no Espírito Santo, para nos libertar da escravidão da morte e nos “abrirmos para o céu”, isto é, o acesso à vida verdadeira e plena, que será “um incessante mergulhar na vastidão do ser, ao mesmo tempo que ficamos simplesmente inundados pela alegria[1]”.

Em 1972, o Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos iniciou um diálogo entre a Igreja Católica e alguns líderes do Pentecostalismo Clássico. Do lado católico, o diálogo era encabeçado pelo Monge Beneditino Killian McDonnell; do lado pentecostal[2], liderava o diálogo um dos maiores nomes do Movimento no Mundo: David Duplessis, apelidado carinhosamente de Mister Pentecostes pelo dinamismo que caracterizara o seu ministério de pastor. Como bem sabemos, o Movimento Pentecostal teve o seu início entre os jovens do Cursilho de Cristandade na região de South Bend, Indiana, nos Estados Unidos. Ralph Martin e Stephen Clark pregaram, em 1966, um encontro para os membros do Cursilho de Cristandade em Pittsburgh; deram a Patrick Bourgeois, William Storey e Ralph Keifer (todos teólogos e professores da Universidade de Duquesne) o livro “A cruz e o Punhal”, de David Wilkerson. Estes três professores organizaram, em fevereuri 1967, na casa de retiros The Ark and the Dove, o retiro que ficou conhecido como Final de Semana de Duquesne, do qual participaram, como estudantes, Patti Gallangher Mansfield, David Mangan, dentre outros. Este evento não foi a fundação, mas constituiu-se num grande marco dos inícios da Renovação Carismática na Igreja Católica. Cinco anos depois, esta experiência já permitia que o tema do Batismo no Espírito Santo fosse tratado por teólogos católicos ligados ao Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos em um diálogo de partilha e mútua compreensão com os irmãos pentecostais[3].

Na primeira fase do diálogo supracitado – ocorrido entre 1972 e 1976 – os pentecostais descreveram o Batismo no Espírito Santo nestes termos:

“No movimento pentecostal, ‘ser batizado no Espírito’, ‘ficar cheio do Espírito Santo’, e ‘receber o Espírito Santo’ são compreendidos como algo que ocorre numa experiência decisiva, distinta da conversão, pela qual o Espírito Santo se manifesta, comunica seu poder, transforma a vida da pessoa e a ilumina a respeito da plena realidade do mistério cristão (Atos 2, 4; 8, 17; 10, 44; 19, 6)[4].”

Na perspectiva católica, Tácito José Coutinho, Moderador da Comunidade Javé Nissi e um dos pioneiros da Renovação Carismática Católica no Brasil, assim descreveu a experiência:

“O que caracteriza a Renovação Carismática Católica dentre outras expressões da Igreja é a maneira como ela interpreta o significado do Pentecostes histórico ocorrido em Jerusalém, identificando esse evento com o chamado batismo no Espírito Santo. Por isso conhecer o significado do “batismo no Espírito Santo” é fundamental para a Renovação Carismática Católica. CORDES (1999)[5] define o batismo no Espírito Santo como a “experiência concreta da graça de Pentecostes, na qual a ação do Espírito Santo torna-se realidade experimentada na vida do indivíduo e da comunidade de fé”.

Moysés Azevedo, Fundador da Comunidade Católica Shalom, fala do Batismo no Espírito Santo enquanto “graça atual[6]” – “impulso divino que capacita alguém a compreender e realizar ações acima de suas forças naturais” – assim como o Cardeal Cordes também o fez, em seu livro sobre a Renovação Carismática e, como é comum na maioria das reflexões católicas do tema, Moysés liga a experiência aos sacramentos da iniciação cristã:

O Batismo no Espírito Santo para nós da RCC, se trata de uma graça atual de Deus concedida àquele que quer e se abre para avivar e plenificar em sua vida o Espírito Santo (II Tm 1,6) que recebeu através dos Sacramentos de iniciação cristã (Batismo, Confirmação e Eucaristia)[7].

A experiência do centurião Cornélio, narrada nos Atos dos Apóstolos, mostra-nos, por outro lado, que esta graça atual é concedida não somente como despertar de uma graça sacramental, mas também como graça que conduz à plena iniciação cristã, que acontecerá na recepção dos sacramentos. Falar de “despertar da graça recebida nos sacramentos de iniciação” é algo que faz todo o sentido nos dias de hoje mas, na Igreja de Atos, não se verifica, posto que, como veremos nas reflexões que se seguirão, esta graça atual era comumente recebida pelos cristãos durante a iniciação cristã, a ponto de os Teólogos Killian McDonnell e George Montague, na obra “Avivar a Chama”, mediante a análise dos escritos patrísticos, constatarem que, na Igreja Primitiva, esta graça atual era normativa e liturgia pública da Igreja.

Portanto, durante o processo de iniciação cristã, recolhido nos nossos dias pelo Rito de Iniciação Cristã de Adultos – Rito Romano reformado por Decreto do Concílio Vaticano II e promulgado por autoridade de S. S. o Papa Paulo VI, que constitui-se em quatro momentos (Pré-Catecumenato, Catecumenato, Purifica & Iluminação e Mistagogia) –  uma “graça atual” frequentemente visitava a alma dos crentes, independente da fase na qual o neófito se encontrava, e esta graça caracterizava-se por manifestações atestadas pelos padres da Igreja – como veremos nas reflexões que se seguirão – inegavelmente identificáveis com as manifestações que vemos hoje na vida de milhares de cristãos que experimentaram o que chamamos de Batismo no Espírito Santo.

A partir do Século IV, o processo de iniciação cristã passou a ser deficitário e muitos recebiam os sacramentos de iniciação cristã sem o devido processo que propicia a expectativa da graça, a conversão genuína e outros pré-requisitos que ajudam a natureza humana a experimentar a transformação que a novidade de vida em Cristo Jesus, comunicada nos Sacramentos, gera[8]. Houve, portanto, uma dissociação dos sacramentos de iniciação cristã da “graça atual”, conhecida hoje como batismo no Espírito Santo, na vida de milhares de pessoas. Por outro lado, o Batismo no Espírito Santo é verificável na vida de inúmeros cristãos ao longo dos séculos – sobretudo na vida dos santos, dos quais temos documentação – e, no Século XX, por desígnio divino, esta graça atual passou a ser vida na vida de milhares de cristãos comuns, num derramar que ficou conhecido como Movimento Pentecostal e Carismático.

Portanto, há uma clara distinção entre o Sacramento do Batismo e a graça atual denominada “batismo no Espírito Santo”. Assim declara o Documento da Quinta Fase do Diálogo entre a Igreja Católica e alguns líderes do Pentecostalismo clássico:

Embora o Relatório Final 1972 -1976 usasse a expressão “receber o Espírito Santo” como descrição do Batismo no Espírito Santo, estava claro para todos os participantes que os cristãos que não haviam tido tal experiência tinham recebido o Espírito Santo. O Espírito Santo habita em todos os cristãos (Rm 8, 9) e não apenas naqueles que foram “batizados no Espírito Santo”[9].

A palavra grega “batismo” significava, naquele tempo, mergulhar ou submergir qualquer coisa. Esta palavra foi tomada em analogia para expressar o rito no qual a filiação divina nos é concedida. Somos mergulhados na morte e emergimos na vida. Já no seu início, portanto, a palavra batismo era um termo análogo. Hoje em dia, muitos desejam tratar o termo como se ele fosse “unívoco” – significasse apenas o sacramento – mas isto não condiz com os textos neotestamentários (recorde-se de Cornélio que foi “batizado no Espírito Santo” enquanto Pedro ainda falava e, posteriormente, recebeu o Batismo Sacramental). A Renovação Carismática Católica emprega o termo “Batismo no Espírito Santo” considerando a palavra “batismo” como análoga, portanto. Os Padres Killian McDonnell e George Montague afirmaram:

O emprego generalizado de “Batismo no Espírito Santo” por pentecostais e evangélicos clássicos leva alguns católicos a desconfiarem que a frase está ligada ao fundamentalismo. Porém, como ela se encontra nas Escrituras e em autores destacados dos primeiros séculos e é usada em quase todas as Igrejas, católicas e protestantes igualmente, onde existe a Renovação Carismática, resolvemos mantê-la[10].

Cabe, ainda, recordar que o termo Batismo no Espírito Santo foi empregado nos Estatutos dos Serviços Internacionais da Renovação Carismática Católica aprovados pela Santa Sé e utilizado pelo Papa Francisco em diversas ocasiões, em seus encontros com os carismáticos católicos.

[1] Angelus, 13 de janeiro de 2008: http://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/angelus/2008/documents/hf_ben-xvi_ang_20080113_battesimo.html

[2] O termo pentecostal, neste contexto, designa somente aos pentecostais protestantes.

[3] CONSELHO PONTIFÍCIO PARA A UNIDADE DOS CRISTÃOS, “Tornar-se Cristão: Inspirações da Escritura e dos textos da Patrística com algumas reflexões contemporâneas”, n. 197, pg. 116, Edições CNBB.

[4] Relatório Final 1972-1976, parag. 12

[5] CORDES, D. Paul Josef, vice-presidente do Conselho Pontifício para os Leigos, de 1981 a 1996, exerceu durante dez anos o cargo de consultor episcopal do ICCRS (ICCRO), designado pelo Papa Paulo VI; in Reflexões sobre a Renovação Carismática Católica, Edições Loyola, S. Paulo, 1999, p.23.

[6] Na Doutrina da graça, faz-se uma série de distinções intelectivas para melhor compreendermos a dinamismo de vida espiritual inaugurado em nós mediante a filiação Divina. Fala-se de “graça santificante”, “graça de estado”, “graça atual”, “graça habitual”, “graça sacramental”, etc.

[7] http://www.comshalom.org/a-renovacao-carismatica-catolica-parte-ii/

[8] De fato, é por isto que vemos teólogos desta época defendendo a cessação dos dons extraordinários, uma vez que já não eram comumente verificáveis. Mas esta teoria foi refutada pelo Concílio Ecumênico Vaticano II, como pudemos verificar no artigo anterior, em diversos documentos.

[9] CONSELHO PONTIFÍCIO PARA A UNIDADE DOS CRISTÃOS, “Tornar-se Cristão: Inspirações da Escritura e dos textos da Patrística com algumas reflexões contemporâneas”, n. 198, pg. 116, Edições CNBB.

[10] MCDONNELL, Kilian, MONTAGUE, George, Avivar a Chama, pg. 10, Edições Loyola.

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